Antes, durante e depois do Maio de Sessenta e Oito

Por ocasião do cinquentenário do Maio de Sessenta e Oito, dentre muitas coisas que foram ditas e escritas, é sempre interessante o debate que ocorre entre os partidários do Maio de sessenta e oito como sendo um processo e aqueles que afirmam ter sido um evento. Uns enfatizam o período de médio-longo prazo, a duração no tempo como preparação e causa e as repercussões na sociedade que seguiram no Maio de Sessenta e Oito, outros tendem a acentuar o momento de ruptura representado pelo evento. Hoje, talvez com espírito mais pacífico, podemos dizer que uma escolha clara entre as duas teses significa tirar algo da compreensão histórica, porque o Maio de sessenta e oito foi tanto um processo quanto um evento. Na Itália, ele foi o processo, porque o Maio de Sessenta e Oito não acabou naquele ano mas, cruzando-se com as lutas operárias de 1969, penetrou na vida social e política dos anos Setenta. Mas também foi um evento no sentido de que o acúmulo de várias contradições produziu um “infarto” simultâneo na Itália e não só na Itália.

Antes
Antes do Maio de Sessenta e Oito, nos anos do boom econômico (1958-1963), a Itália passou por transformações que mudaram a fisionomia das classes sociais, da sociedade, da cultura e dos costumes. Aqueles anos, de acordo com o julgamento empenhado do historiador Guido Quazza, representaram um “verdadeiro divisor de águas da história social, [devido] à grande migração de pessoas que haviam se deslocado e estavam se deslocando do Sul para Norte, do campo para a cidade.” (1) Aquela onda de migração misturou culturas, hábitos de vida, costumes e dialetos diferentes e mudou a composição das classes sociais. A classe operária foi atingida por processos de renovação e recomposição, em particular, ele sofreu uma mudança, devido, tanto à natural renovação geracional, como ao maciço afluxo de trabalhadores com outra formação provenientes da migração interna. As novas levas operárias evidenciaram comportamentos e atitudes que, em 1969, as colocaram à frente do movimento de luta na fábrica e fora dela. Eles eram os “operários de massa”, de acordo com o termo cunhado pelo operariado italiano: trabalhadores mais ou menos jovens, muitas vezes imigrantes do Sul, especialmente trabalhavam na cadeia de produção, poucos eram sindicalizados, sujeitos à fragmentação taylorista das tarefas nas fábricas.

A dificuldade encontrada para inserir-se na vida urbana pesou sobre sua condição operária. Crescia um mal-estar social e existencial que se manifestava no aumento da tensão nos bairros onde viviam os imigrantes, nos quais ocorreriam episódios de rebelião violenta e repentina.

A modernização do País se manifestou, também, no surgimento de uma intolerância juvenil, semelhante ao que acontecia em outros países europeus, que se manifestava na contraposição de estilos de vida diferentes daqueles dos adultos, ligados à música beat, à maneira de se vestir, ao corte de cabelo e à forma de viver as relações interpessoais. Onde isso se manifestava era na família e na escola, com atitudes e reivindicações de liberdades pessoais. Quando as lutas estudantis nas universidades explodiram, esse mal-estar geracional constituiu um pano de fundo de consenso e compartilhamento. De fato, quando os protestos estudantis explodiram representados na forma do movimento estudantil, 61% de uma amostra estatística representando os jovens afirmou que aprovava as manifestações estudantis e seus propósitos. (2)

Paralelamente, nos anos Sessenta, estava se formando uma nova geração militante influenciada pelos acontecimentos políticos e de costumes nacionais e internacionais: a Revolução Argelina, a cubana, as manifestações contra a guerra do Vietnã, a morte de Che Guevara na Bolívia em 1967, a Revolução cultural chinesa.

A dissidência crítica da esquerda desenvolveu-se dentro e fora do próprio PCI e, em particular, entre os jovens da Federação da Juventude Comunista. O nascimento do Partido Socialista Italiano de Unidade Proletária (PSIUP) em 1964, que não aceitou as decisões dos dirigentes do Partido Socialista, ajudou a fortalecer o debate, enquanto as constantes diferenças entre a China e a URSS favoreceu o surgimento de uma dissidência marxista-leninista se aliou à já existente militância crítica de outros grupos de esquerda – reunidos em torno de revistas, dentre as quais Falcemartello, La Sinistra e, antes ainda, Bandiera Rossa, Quaderni Rossi e Classe operaia – anarquistas e bordighisti.

O mundo católico, atravessado por fermentações críticas, trouxe sua contribuição para as contestações estudantis, incentivado pelo clima de renovação da Igreja inaugurado pelo Papa João XXIII, pelo Concílio Vaticano II, pelas lutas de libertação nos países latino-americanos, com seus protagonistas católicos como Camilo Torres.

 Durante
As origens estruturais do movimento estudantil encontram-se na extensão da escolaridade obrigatória até aos 14 anos (1962), no aumento significativo dos matriculados no ensino médio, com relativo, embora não proporcional, aumento de matriculados nas faculdades universitárias. A proposta de reforma universitária apresentada pelo governo foi o estopim do protesto estudantil já no ano acadêmico de 1966-67. A este motivo, outras insatisfações se agregaram. A didática do ensino parecia incapaz de responder às novas necessidades de formação trazidas pela transformação neocapitalista; os sistemas de seleção, os desconfortos materiais de vários tipos, a opressão ideológica e o despotismo dos “barões” universitários tornaram-se cada vez mais intoleráveis ​​para a nova massa de estudantes. A escolha de afrontar os movimentos estudantis com repressão policial contribuiu para aumentar a tensão. De fato, a polícia interveio para acabar com a ocupação da universidade em Pisa e em Turim, em fevereiro de 1967 e, em Trento, em março do mesmo ano. O autoritarismo não era apenas o dos “barões” deduziram os estudantes, mas toda a sociedade, em suas várias instituições, era autoritária e repressiva.

No ano acadêmico de 1967-68, as agitações universitárias assumiram dimensões e características nunca antes vistas. De novembro de 1967 a junho de 1968, houve 102 ocupações de unidades ou faculdades universitárias. As lutas estudantis e o nascimento do movimento estudantil levaram ao abando do pedido de reforma democrática da escola e dos instrumentos tradicionais de representação estudantil, substituídos pela democracia direta baseada na assembleia geral e nos grupos de estudo e de trabalho. Durante as ocupações, os estudantes tomaram consciência da relação existente entre o sistema escolar e o mundo da acumulação capitalista. Chegaram à conclusão que o objetivo da reforma escolar não seria produzir nada além do que um fortalecimento do sistema capitalista como um todo, de modo que a luta atingiu todo o sistema de dominação e poder. No movimento estudantil, abriu-se um debate para traçar as linhas de uma estratégia revolucionária apoiada por uma série de medidas organizativas e de iniciativas de luta a serem conduzidas juntamente com outros estratos sociais oprimidos. O encontro com as lutas dos trabalhadores no ano seguinte fez com que o Maio de Sessenta e Oito italiano não morresse depois daquele verão, mas abrisse uma longa fase de conflitos que sacudiram todos os anos Setenta.

Olhando bem, antes mesmo do ano 1969 operário, em 1968 já haviam se desenvolvido lutas operárias com novas e inquietantes características para os patrões, mas também para os sindicatos, no decorrer de alguns grandes embates, tais como os de Marzotto em Valdagno, da Pirelli em Milão e aqueles na área do Porto Marghera. Nestes dois últimos estabelecimentos, surgiram organizações de base autônomas em ruptura aberta com os sindicatos: eram os Cubs (Comitês Unitários de Base) e a assembléia operária chamada “Poder Operário”. Em 1969, acordou o gigante adormecido representado pela Fiat. Já em maio-junho do mesmo ano se iniciaram as disputas em vários setores durante as quais diversas vezes, os sindicatos foram ultrapassados nas reivindicações (aumento igual para todos, aumento de salário com redução de jornada, progressão automática para a segunda categoria) e nos métodos de luta por parte dos operários (paralisações repentinas, greves e marchas internas). Depois das férias chegou o outono quente. O protesto dos operários italianos chamou a atenção pela sua intensidade no “outono quente” de 1969 e para a continuidade e extensão do fenômeno, que se repetiu durante a luta pelas renovações contratuais de 1973 e nos anos seguintes.

Depois do Maio de Sessenta e Oito, o que se seguiu, escreveu um historiador da Itália republicana, “foi um período de extraordinária convulsão social, a maior época de ação coletiva na história da República. Durante esses anos, a organização da sociedade italiana foi questionada em quase todos os níveis. Na Itália, os protestos foram os mais profundos e duradouros da Europa “. (3)

Depois
As lutas estudantis do biênio 1968-1969 desencadearam uma crise política, social e cultural em que novos protagonistas apareceram em cena: a nova subjetividade operária, a esquerda extraparlamentar, os movimentos pelos direitos civis e os das mulheres. As lutas operárias mudaram a relação de forças nas fábricas a favor dos trabalhadores. Questões como a organização da produção, os ritmos e os tempos, a empreitada, o ambiente de trabalho foram objeto de negociação através de delegados operários eleitos em assembleias por setor. Através da introdução dos conselhos de fábrica e dos delegados, aceitos pelos sindicatos para substituir as antigas comissões internas, os trabalhadores encontraram uma resposta ao seu pedido de reconhecimento e representação.

Apesar dos esforços que uma parte do PCI fez em 1968, sob a liderança de seu Secretário Luigi Longo, para recuperar o movimento estudantil com uma proposta política de cunho anticapitalista, evitando assim os riscos, segundo o Partido, de perigosos desvios ultraesquerdistas, não conseguiu impedir que da onda de lutas do biênio 1968-69 se formasse uma minoritária mas dinâmica zona de consenso e participação política ativa de grupos extraparlamentares que se constituíram durante estes dois anos. Na verdade, o próprio PCI deu a sua contribuição para o nascimento de um desses grupos, quando, em 1969, expulsou os líderes que se reuniam em torno da revista Il Manifesto, da qual adotou o nome a homônima organização política, que pôde contar, de acordo com fontes do Pci, com 6 a 7 mil membros. Da mesma forma Avanguardia operaria (Ao), nascida em 1968, tinha entre 13 a 18 mil membros. Lotta continua, que tomou o nome do jornal publicado a partir de novembro de 1969, com cerca de 13 a 14 mil e o Partido de Unidade Proletária (Pdup), construído após a dissolução do Psiup, com 14 a 15 mil. (4)

Um conjunto de grupos que, pelo menos em sua origem assim eram formados, na maioria dos casos surgiram sem congressos de fundação e frequentemente adotavam o nome de seu jornal. O caso mais emblemático, para destacar o que eram esses grupos políticos, compostos principalmente por jovens e muito jovens, era representado por Lotta continua, uma organização nascida no fervor da luta, como se dizia então. Uma organização anômala, de acordo com os critérios atuais, que realizou seu primeiro congresso apenas em 1975, seis anos após seu surgimento.

Todas estas organizações foram imediatamente chamadas à prova da elaboração política em um contexto que tomou rumos turvos e obscuros, especialmente a partir do massacre da Praça Fontana em Milão, em 12 de dezembro de 1969, onde uma bomba colocada no Banco Agrícola explodiu causando 17 mortos e uma centena de feridos. Era o começo da temporada dos massacres neofascistas e das associações entre grupos subversivos de direita e setores dos serviços secretos do Estado. No total, entre 1969 – 1974, foram contabilizadas 92 mortes por motivações políticas, das quais 63 devido à violência e atos terroristas de direita, 10 mortos em confrontos com a polícia, 8 em outras circunstâncias e 9 atribuídas a ações de grupos de esquerda. (5) A reação da direita e das instituições se manifestou com a crescente onda repressiva contra a esquerda extraparlamentar, com o aumento de votos ao Movimento social italiano, com a constituição, após eleições de 1972, de um governo de centro-direita. A reação conservadora era um perigo real, por outro lado a Itália era a única democracia no sul da Europa Ocidental, cercada pela Grécia dos coronéis, pela Espanha franquista e por Portugal de Salazar.

Nesta situação, a temática da resistência e antifascistas foi retomada pelos movimentos e grupos extraparlamentares. Nasceu o antifascismo militante, entendido como um método de luta e não apenas como celebração da libertação, contra um Estado e uma patronal que se movia ainda, em muitos aspectos, em continuidade com os aparatos do poder (econômico, burocrático e policial), que haviam caracterizado o regime fascista. O novo antifascismo reconhecia e praticava o uso de formas de violência, especialmente defensiva, como a proteção das marchas e locais públicos, através das equipes de segurança, do confronto com os fascistas, e da interrupção dos comícios da MSI, sem jamais iludir-se “de resolver integralmente os problemas políticos através da violência”. (6) Nesse sentido, apesar das aparências, os contrastes eram muitos, existiam diferenças profundas entre a prática do antifascismo militante e aquela da luta armada. As Brigadas Vermelhas chamaram a Resistência, mas, de fato, como admitiu um dos principais dirigentes da organização, causaram, com as suas escolhas, uma ruptura substancial no que se refere à concepção tradicional do uso da força, ou seja, que também reconhecia a eventualidade da luta armada, mas subordinando-a a uma estratégia de massa, considerando-a uma necessidade inconveniente, não um a priori para diferenciar os revolucionários dos reformistas. As ‘Brigadas Vermelhas., a partir de um certo momento, colocaram em prática uma ‘violência ofensiva’, […] Não mais a defesa de agrupamentos políticos, com as marchas, os piquetes ou outra situações, mas a conquista de outros espaços. Não nos limitávamos a defender com armas o terreno onde havia chegado a luta de massa”. (7)

Naquela circunstância, a esquerda extraparlamentar teve que reorientar suas táticas e sua estratégia. O 1973 foi um ano emblemático, dividido em períodos. A crise do petróleo foi o prenuncio da verdadeira onda recessiva que atingiu as economias capitalistas em 1974, pondo fim à fase da “idade de ouro” do desenvolvimento econômico. Enquanto isso, a sociedade civil italiana vivia uma efervescência de movimentos sociais, de protagonismo e participação: das mulheres, à magistratura, à psiquiatria, aos soldados, aos prisioneiros, aos estudantes do secundário, que se alinhavam a um movimento operário ativo organizado na rede ramificada dos conselhos de fábrica.

O golpe chileno de 11 de setembro de 1973 representou o evento que ofereceu a oportunidade ao Pci, através de seu secretário Enrico Berlinguer, para lançar o “compromisso histórico”: um apelo à unidade de todos os partidos antifascistas para governar juntos o país, combatendo o fascismo e a crise econômica e social. Era, no fundo, o renascimento da ampla unidade dos partidos antifascistas que tinha caracterizado a linha comunista no Comitê de Libertação Nacional durante a luta de resistência, e logo depois com a participação comunista nos governos de reconstrução até 1947. Alternativamente, a nova esquerda, embora dividida, tentou combater a estratégia comunista, trabalhando pela unidade da esquerda contra as forças conservadoras e a Democracia cristã (Dc). A vitória eleitoral obtida no referendo sobre o divórcio de 12 de maio de 1974, proposta pela Dc para revogar a lei que o permitia, foi uma surpresa e sinalizou a maturidade da sociedade italiana em relação aos direitos civis. Politicamente, aquele voto foi interpretado como um grande impulso para a mudança. Enquanto a nova esquerda colocava no centro da mudança o sujeito social representado pelos movimentos e pela luta operária, o Pci perseguia uma estratégia que atrelava os movimentos à política partidária nas instituições, com vista a formar um governo de coalizão que abrangeria comunistas, socialistas, católicos, liberais e republicanos.

As eleições políticas de 20 de junho de 1976 representaram a flexibilização da política comunista e a da nova esquerda. Grande sucesso do Pci que chegou a 34% dos votos, perda de votos dos socialistas, manutenção da DC, pequeno e insatisfatório resultado da Democracia proletária (1,5%). Um governo de solidariedade nacional foi constituído com a abstenção dos comunistas, mas no ano seguinte eles entraram no governo. A política comunista foi imediatamente caracterizada por um senso exasperante do Estado, da legalidade e de respeito pela manutenção do sistema. Eles responderam à crise econômica pedindo sacrifícios aos trabalhadores para permitir a recuperação do sistema produtivo e das taxas de lucro. Só depois desta primeira fase seria possível ter a perspectiva da segunda: a das reformas que poderiam chegar, disse o secretário Enrico Berlinguer, até a introdução de alguns “elementos do socialismo”. A este estágio, inútil dizer, nunca se chegou. Tendo esgotado sua tarefa, o PCI nas eleições de 1979 perdeu votos e foi forçado a retornar à oposição.

Final
A decepção com os resultados eleitorais de 20 de junho de 1976 se transformou numa crise dos grupos da nova esquerda. Em outubro de 1976, Lotta Continua deixou de existir como organização. A hipótese de uma unificação entre Avanguardia operaia e Pdup-Manifesto também faliu. Muitos militantes e simpatizantes desses grupos abandonaram a militância política cotidiana, outros acreditaram que encontrariam o caminho da salvação mergulhando no novo movimento juvenil e estudantil que estava surgindo em 1977, no qual desempenhou um papel importante no campo da Autonomia operaia, em expansão e crescimento após a crise dos principais grupos extraparlamentares. Frente ao novo movimento de protesto a política do Pci foi severa e duríssima. A maioria dos participantes foi julgada como se fossem provocadores fascistas, baderneiros, “drogados”, marginais, que deveriam ser combatidos de todas as formas. Ao contrário do que ocorreu em 1968, desta vez nenhum diálogo foi possível com um Partido que se sentia uma força de governo e não mais de oposição. A Cgil (Confederação Geral Italiana do Trabalho) entra em campo decisivamente ao lado da política comunista, foi envolvida na contraposição ao movimento que culminou com a expulsão, pelos estudantes da universidade de Roma, do secretário Luciano Lama, que tinha ido lá para fazer um comício, em 16 de fevereiro de 1977.

Na segunda metade dos anos Setenta, o fenômeno do “terrorismo vermelho” cresceu em tamanho e relevância. Subestimados ou rapidamente liquidados como provocadores fascistas, agentes da CIA ou agentes de uma conspiração organizada pela classe dominante, por parte das forças da esquerda tradicional e até da nova, a estratégia das organizações de luta armada mudou, passando dos projetos político-administrativos, à prática de sequestros, matando ou ferindo aqueles que eles achavam que fossem os adversários a serem atingidos. Ao lado das Brigadas Vermelhas, a partir dos anos 1976-77, houve uma infinidade de outras siglas que praticavam uma espécie de “espontaneismo armado”. Entre esses grupos, o mais consistente foi o Prima linea, cujos membros, enquanto puderam, praticavam uma dupla militância: nos movimentos e nos grupos de fogo. De 1974 a 1980, houve 293 mortes e 171 feridos por motivos atribuíveis a razões políticas. Destes, 104 mortes e 106 feridos foram atribuídas ao terrorismo de esquerda (8). Tudo se tornou mais difícil e complicado para os movimentos que, como aquele de 1977, pressionados pelo terrorismo de esquerda, pela repressão policial e pela contraposição frontal do Pci, foram colocados na defensiva e depois derrotados.

Contra as histórias trituradas, em moda hoje, quando se fala dos anos Setenta, deve destacar-se que havia uma diferença profunda entre o movimento, a maioria dos grupos ou partidos da nova esquerda, e aqueles que escolheram o caminho da clandestinidade e da luta armada. Os movimentos e a nova esquerda continuaram a considerar: “que para mudar a sociedade italiana era preciso agir profundamente dentro da própria sociedade civil, tentando constituir um movimento de massas e mudar a consciência […]. Os terroristas, ao invés disso, escolheram a clandestinidade e a ação violenta, colocando-se fora da realidade e isolando-se […] Até quando não foi tarde demais, eles foram incapazes de mensurar os efeitos prováveis ​​de suas ações, de avaliar o seu trágico balanço: não só mataram a sangue frio, mas contribuíram muito para a destruição de todo o movimento que queria mudar a sociedade italiana “. (9)

Neste sentido, o sequestro do presidente da Democracia Cristã, Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas e seu assassinato em 09 de maio de 1978, foi o começo do fim de um período de luta e participação coletiva, que durou pelo menos uma década. Marcou o fortalecimento da unidade indistinta dos partidos políticos nos governos de unidade nacional, a adoção de medidas repressivas contra os movimentos de protesto, a condenação de cada posição que contrastasse com a posição oficial do governo e do Estado. Representou também o canto do cisne do terrorismo de esquerda, que em poucos anos foi derrotado militar e politicamente. O outro evento que encerrou os anos Setenta foi a luta da Fiat de 1980 contra a exigência de não redução de salários de 23.000 funcionários. Para vencer a resistência operária e dos conselhos de fábrica, não bastando a pressão patronal e governamental, teve que intervir a liderança dos sindicatos associados e boa parte da liderança comunista: fizeram isso da maneira deles, dizendo que o acordo alcançado, depois de trinta e cinco dias de luta, era uma “vitória”. Finalmente, em 1985, o movimento operário sofreu outra derrota no referendo, que confirmou pesados cortes ​​na atualização dos salários.

Conclusão
Embora várias décadas tenham se passado desde aqueles anos, muitas vezes o Maio de Sessenta e Oito ainda é apresentado como um breve meteoro que durou poucos meses e a década Setenta torna-se a época dos “anos de chumbo”, do terrorismo. Assim, aquela década parece não pertencer à história da Itália, aparece como o bem conhecido “parêntese do espírito” de Benedetto Croce. Em vez disso, na história italiana, atravessada por mudanças mais sofridas pelo povo do que participadas, como no caso do processo Ressurgimento, o Maio de Sessenta e Oito e os anos Setenta se diferenciaram por uma grande atuação da população, o desejo de ser protagonista, de participar e não delegar, que guarda relação, ainda que numa dimensão menor, mas significativa, com a experiência da luta de resistência de 1943-1945. À democracia formal, que é reduzida à participação de pequenas elites partidárias, juntou-se a uma alegre e jovem democracia substancial. A partir deste substrato de relacionamentos e relações sociais, de efervescência que animou a sociedade civil, dos movimentos e dos conflitos desencadeados, do protagonismo de estratos sociais anteriormente excluídos ou mal representados, deve-se retornar para narrar fatos e eventos de “superfície” daquela década e sua inter-relação com as instituições, com os partidos e com os sindicatos. Naquele contexto e naquele quadro, os fatos adquirem um significado, uma localização, uma perspectiva, podem ser compreendidos, explicados e julgados aberrantes, quando é o caso. Tudo isso não pode ser feito apenas pelo historiador, porque o interesse pelo passado, se não surge de questões do presente, permanece ou torna-se pura erudição, exercício de acumulação de um conhecimento sem alma, incapaz de estar vivo.


Notas

1) G. Quazza, “A Resistência ao Fascismo na Itália”, na Itália contemporânea, n. 162, março de 1986, p. 11.

2) Investigação da Shell n. 9, Questi giovani, Genova, Shell Italiana , 1970, pp. 15-16.

3) P. Ginsborg, História da Itália do pós-guerra até hoje, Einaudi, 1989, p. 404.

4) Cfr., Ermanno Taviani, “PCI, extremismo de esquerda e terrorismo”, em Itália republicana na crise dos anos setenta. Sistema político e instituições, editado por Gabriele De Rosa e Giancarlo Monina, vol. IV, Soveria Mannelli, Rubbettino de 2003. A estes dados devem ser adicionados os membros de outras organizações e grupos políticos, como o Partido Comunista da Itália (m-l) e a União dos comunistas italianos que tinham ambos entre 5 a 10 mil membros, Poder Operário, cerca de 2000; além de alguns outros milhares de adeptos de outros grupos, como os anarquistas, até grupos políticos menores que variavam de algumas dezenas a algumas centenas de militantes, como no caso dos trotskistas dos Grupos comunistas revolucionários, do Grupo Gramsci, da Liga dos comunistas, etc.

5) Dados extraídos de M. Galleni (editado por) Rapporto sul terrorismo. Le stragi, gli agguati, i sequestri, Le sigre, 1969-1980, Rizzoli, 1981, pp. 51-84-89.

6) A. Rapini, Antifascismo e cidadania. Juventude, identidade e memórias na Itália republicana, Bonomia university press, 2005, p. 170.

7) M. Moretti, Brigadas Vermelhas. Uma história italiana, Anabasi, 1994, p. 47.

8) Dados retirados de M. Galleni, op. cit., pp. 51, 84, 89. Nesse contexto, o maior número de atentados foi reivindicado pelas Brigadas Vermelhas. A primeira linha foi seguida (ibid, páginas 182 e 186).

9) P. Ginsborg, op. cit., p. 488.

Tradução: Alberto Albiero

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