O marxismo e a questão nacional e colonial

Em geral, os militantes socialistas e comunistas jovens acreditam que as posições de Marx e Engels, assim como de Lênin e Trotsky são sentenças definitivas, de gênios que não se equivocaram.

Sentimos desapontar estes companheiros, mas como se diz no Paraguai: “Ndahaei upéicha, irun”[1].

Apesar de gênios, estes mestres elaboraram sua teoria partindo dos acontecimentos do seu tempo e, em várias ocasiões, tiveram posições equivocadas e evoluíram nas suas opiniões.

Um exemplo claro é a formação da opinião de Marx e Engels sobre a questão nacional e colonial.

Eles tiveram duas fases do seu pensamento: até 1867 [2] acreditavam que o capitalismo tinha um papel “civilizador” dos povos “bárbaros”, portanto cumpria um papel progressivo na colonização e semicolonização dos países “atrasados”.

De 1867 em diante, partindo da experiência da Irlanda, concluíram o oposto: o papel do imperialismo inglês na Índia e na Irlanda era regressivo, destruindo sua economia, impedindo o desenvolvimento econômico normal destes países, já motivados por uma dominação imperialista nascente. Também identificaram a corrupção da classe operária inglesa, que foi beneficIada com a exploração colonial de metade do mundo de então. Concluíram que a revolução estalaria antes na Irlanda que na Inglaterra e que o papel da Internacional seria ao lado da Irlanda colonizada contra a Inglaterra imperialista.

Pedimos paciência ao leitor para citar o mais completamente possível Marx e Engels, para que se veja se houve mudança na opinião deles e qual o conteúdo da mudança frente a uma questão vital para a revolução.

Eles constataram a existência do mercado mundial capitalista e a dominação dos países “atrasados” pelos países centrais da Europa no Manifesto Comunista:

“Pela exploração do mercado mundial a burguesia imprime um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países. Para desespero dos reacionários, ela retirou à indústria sua base nacional. As velhas indústrias nacionais foram destruídas e continuam a sê-lo diariamente. São suplantadas por novas indústrias, cuja introdução se torna uma questão vital para todas as nações civilizadas, indústrias que não empregam mais matérias­-primas autóctones, mas sim matérias-primas vindas das regiões mais distantes, e cujos produtos se consomem não somente no próprio país mas em todas as partes do globo. Em lugar das antigas necessidades, satisfeitas pelos produtos nacionais, nascem novas necessidades, que reclamam para sua satisfação os produtos das regiões mais longínquas e dos climas mais diversos. Em lugar do antigo isolamento de regiões e nações que se bastavam a si próprias, desenvolvem-se um intercâmbio universal, uma universal interdependência das nações.”

(…)

“Do mesmo modo que subordinou o campo à cidade, os países bárbaros ou semibárbaros aos países civilizados, subordinou os povos camponeses aos povos burgueses, o Oriente ao Ocidente.” [3]

Produziram uma genial análise do desenvolvimento do capitalismo mundial, porém, concluíram que esta expansão capitalista, que começou no século XV e concluiu-se no século XIX, teria sido progressiva e “civilizadora”.

Engels falou, num discurso pronunciado em 1847 o seguinte:

“Vimos como na China, país que há mais de mil anos resiste ao desenvolvimento e a marcha da historia, foi sacudido hoje pelos ingleses, com sua maquinaria, e arrastado à civilização.” [4]

Ele também escreveu, um ano mais tarde, apoiado numa justificativa que os mexicanos eram “preguiçosos” e os ianques “enérgicos”, a seguinte frase:

“Na América presenciamos a conquista do México, fato que muito nos agradou. Constitui um progresso, também, que um país ocupado até o presente exclusivamente consigo mesmo, arrasado por perpétuas guerras civis e impedido de todo o desenvolvimento, um país que na melhor das hipóteses estava a ponto de cair na vassalagem industrial da Inglaterra, que um país semelhante seja lançado pela violência ao movimento histórico. É no interesse de seu próprio desenvolvimento que o México estará no futuro sob a tutela dos Estados Unidos. É no interesse do desenvolvimento de toda a América que os Estados Unidos, mediante a ocupação da Califórnia, obtêm o predomínio sobre o Oceano Pacífico”. [5]

Assim, Engels justificou a anexação, pela força das armas, de 40% do territorio do México pelos Estados Unidos (área que hoje corresponde aos Estados do Texas, Nevada, Califórnia, Utah, Novo México e partes do Arizona, Colorado e Wyoming – cerca de 20% do território atual dos Estados Unidos).

Essa opinião era comum também a Marx, que escreveu em junho de 1853:

“É verdade que, ao causar uma revolução social no Indostão [hoje corresponde a região ocupada pela Índia, Paquistão, Bangladesh e Nepal], a Inglaterra foi movida apenas pelos mais vis interesses e foi estúpida na sua maneira de os impor. Mas não é esta a questão. A questão é: pode o homem cumprir o seu destino sem uma revolução fundamental no estatuto social da Ásia?….quaisquer que tenham sido os crimes da Inglaterra, ela foi o instrumento inconsciente da história para originar essa revolução.” [6]

No mesmo ano prognosticou:

“A destruição da sua indústria arcaica era necessária para privar as aldeias do seu carácter de auto-suficiência.” [7]

“Os caminhos de ferro tornar-se-ão, portanto, na Índia, os precursores da Indústria moderna.”[8]

Este erro dos mestres do proletariado foi produto de uma interpretação mecânica, feita por eles no Manifesto Comunista, que a expansão capitalista que se deu nos países centrais se repetiria nos países colonizados ou semicolonizados pelo imperialismo nascente.

“As demarcações e os antagonismos nacionais entre os povos desaparecem cada vez mais com o desenvolvimento da burguesia, com a liberdade do comércio e o mercado mundial, com a uniformidade da produção industrial e as condições de existência que lhe correspondem.”

Essa previsão do Manifesto se realizou em parte. Houve uma “uniformidade da produção industrial e as condições de existência que lhe correspondem” em todo o mundo, mas os antagonismos nacionais não desapareceram, ao contrário, se exacerbaram na época imperialista.

Monopolio da indústria inglesa e destruição da indústria dos países atrasados
A dominação imperialista das nações “atrasadas”, ao contrário, impediu o desenvolvimento capitalista “normal” dos países colonizados, quebrou a indústria local para garantir mercado aos produtos manufaturados da Inglaterra, transformou as economias locais em exportadoras de matérias primas para as metrópoles e atolou os países em dívidas com banqueiros internacionais. Com isso, atrofiou as condições para o surgimento de autênticas burguesias locais e tornaram mais complexas as relações entre as classes sociais e a luta de classes nos países coloniais e semicoloniais.

Em um processo que começou em torno do século XV e que deu um salto no último quarto do século XIX, com advento do imperialismo, se criou um Sistema Mundial de Estados, onde os países desenvolvidos monopolizaram a produção da indústria, utilizando todo tipo de protecionismo, enquanto a indústria dos países coloniais foi destruída, com o objetivo de especializar as colônias e semicolônias em exportadores de matérias primas e mercado cativo das manufaturas inglesas.

Isto é, se criou um Sistema Mundial de Estados, interconectado e interdependente, um Sistema Colonial, que permitiu o desenvolvimento industrial acelerado nas metrópoles e perpetuou o atraso nos países coloniais e semicoloniais: essa foi a divisão internacional do trabalho que deu base para o advento do capitalismo em nível mundial e posteriormente, ao imperialismo, entre 1875 e 1900.

Por exemplo, a Inglaterra proibiu a importação de sedas e tecidos de algodão da Índia, Pérsia (atual Irã) e China.

A Índia que até 1813 tinha sido o maior exportador de tecidos tornou-se um país importador. As máquinas inglesas produziam 350 vezes mais rápido que o operário indiano. Assim se quebrou a indústria têxtil indiana:

“A Índia, a grande oficina de manufatura de algodão para o mundo, desde tempos imemoriais, estava agora inundada de fios e de tecidos de algodão ingleses.” [9]

O mesmo se passou com a Irlanda. Por volta de 1800, a indústria irlandesa estava em crescimento, a união forçada com a Inglaterra e leis que favoreceram a indústria inglesa, quebraram a indústria irlandesa:

“A Inglaterra subverteu as condições da sociedade irlandesa. Em primeiro lugar confiscou a terra, depois suprimiu a indústria através de ‘disposições parlamentares’”.(….) “Pela opressão constante, a Irlanda foi convertida artificialmente numa nação cada vez mais pobre.” [10]

Karl Marx sintetizou em O Capital, a mecânica de subjugação dos países atrasados pelos países da Europa central:

“Extinguiram também, pela força, nos países colocados na sua dependência, todas as indústrias, como fez a Inglaterra, por exemplo, com a manufatura da lã irlandesa.”[11]

Engels vai concluir, também, em escritos da sua maturidade, no ano de 1870, que o capitalismo dos países centrais impediu o desenvolvimento autóctone do capitalismo nos países atrasados:

“Quanto mais estudo o assunto, mais me parece claro que a Irlanda foi atrofiada no seu desenvolvimento pela invasão inglesa…”[12]

E já velho, em 1884, concluiu que a conquista espanhola impediu o desenvolvimento das nações americanas:

“A conquista espanhola cortou neste momento todo desenvolvimento independente posterior”.[13]

Citamos de forma extensiva a Marx e Engels para que o leitor ou leitora tenha uma ideia do desenvolvimento do pensamento dos jovens autores e depois na sua maturidade. Demonstramos assim que a política colonial está indissoluvelmente ligada à política industrial, na criação de um sistema colonial, com divisão internacional do trabalho, que foi a base para o desenvolvimento das metrópoles capitalistas da Europa. A nascente produção industrial inglesa necessitava de mercado exterior livre e mercado interior protegido das manufaturas “estrangeiras”.

Esta divisão internacional do trabalho, imposta pela força, através de um genocídio, perpetuou o atraso colonial numa ponta, produzindo matérias primas para exportação, sufocando os países atrasados com formas de produção pré-capitalistas. Assim, o escravismo e a opressão do camponês pelo latifúndio, nos países coloniais foram mantidos artificialmente pelo capitalismo dos países centrais, para o desenvovimento da sua indústria. Artificialmente porque foi imposta desde fora aos países coloniais e semicoloniais a desindustrialização e a especialização exportadora de matérias-primas e alimentos.

Poderíamos citar também como exemplo, o Alvará de 5 de janeiro de 1785, de Dona Maria I, rainha de Portugal entre 1734 e 1816, que extinguiu as manufaturas de tecido no Brasil, obrigado a comprar produtos industriais da Inglaterra, a quem Portugal já era totalmente dependente.

Ao contrário do Brasil, seu vizinho, o Paraguai possuía estaleiros, fábricas metalúrgicas, têxteis, telégrafo, frota mercante, marinha de guerra, imprensa, gráfica e ferrovias. A guerra da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) foi determinada e financiada por empréstimos ingleses, com objetivo de quebrar toda indústria paraguaia, que era um mau exemplo para os países vizinhos já que, apesar de maiores que o Paraguai, importavam todos os produtos industriais da Inglaterra. Por isso, foi demolida toda a nascente indústria paraguaia. Destruiu-se o Paraguai que se opunha ao processo de dominação britânico e subjugou-se inteiramente o Brasil, a Argentina e o Uruguai através de enorme endividamento com os bancos ingleses.

A mesma regra era reservada aos colonos da América do Norte pela Inglaterra. Em 1750, foi proibido aos colonos dos estados de Nova York e Pensilvania de trabalharem o ferro, ofício que era monopólio da indústria inglesa.

Com o advento do imperialismo, ao contrário do que se previu no Manifesto, os antagonismos nacionais se potencializaram mais que antes, dividindo o mundo entre países imperialistas e países coloniais, gerando ocupações coloniais e revoluções de independência nacional, nova forma de expressão da revolução democrático-burguesa nos países atrasados, produto do domínio imperialista do mundo. Estes antagonismos nacionais, petrificado nos Estados nacionais, entraram em contradição com a internacionalização do mercado e da produção capitalista, gerando as duas grandes guerras, que levou à morte de dezenas de milhões de pessoas.

 

Uma visão linear da revolução indo do centro para a periferia
No Manifesto, Marx e Engels concluíram que o capitalismo criou o mercado mundial e uma classe mundial, por isso, as frases lapidares:“Os operários não têm pátria” e “Proletários de todos os países, uní-vos”.

Para Marx e Engels, neste período, por volta da década de 50 do século XIX, a questão nacional e colonial (a independência dos países “bárbaros ou semi-barbáros”) seria resolvida como subproduto da tomada do poder pelo proletariado dos países adiantados:

À medida que for suprimida a exploração do homem pelo homem será suprimida a exploração de uma nação por outra.”[14]

Ou dito de outra maneira, nas palavras do Lênin: “No início, Marx acreditava que o movimento que libertaria a Irlanda era o movimento operário da nação opressora e não o movimento nacional da nação oprimida.” [15]

Assim, caberia ao proletariado da Inglaterra, da França e da Alemanha, através da revolução socialista, a tarefa de libertar os povos da Ásia, África e América, colonizados e semicolonizados pelo imperialismo.

Apesar disto, ao utilizar o método dialético, acentuando as contradições do processo, conseguiram vislumbrar o enorme peso que a questão nacional assumiria nos “primeiros tempos” da revolução, que para eles demoraria alguns meses e, no máximo, alguns anos.

A luta do proletariado contra a burguesia, embora não seja na essência uma luta nacional, reveste-se, contudo dessa forma nos primeiros tempos. É natural que o proletariado de cada país deva, antes de tudo, liquidar sua própria burguesia.”[16]

Os operários não têm pátria. Não se lhes pode tirar aquilo que não possuem. Como, porém, o proletariado tem pôr objetivo conquistar o poder político e erigir-se em classe dirigente da nação, tornar-se ele mesmo a nação, ele é, nessa medida, nacional, embora de nenhum modo no sentido burguês da palavra.”[17]

É muito importante este alerta de que o proletariado ao assumir a luta nacional, não deve fazê-lo no “sentido burguês da palavra”. Isto quer dizer que a luta nacional para o proletariado, não tem um fim em si mesmo, de determinar fronteiras nacionais a serem usadas contra outras nações, e sim apenas como alavanca, para desenvolver a revolução socialista internacional, portanto, a luta nacional para ser bem usada pelo proletariado, deve estar subordinada à luta de classes internacional e à revolução mundial. Para o nacionalismo burguês, a nação é tudo e a contradição de classe entre proletariado e burguesia deve subordinar-se aos interesses nacionais, que são os interesses da burguesia. O marxismo, apesar de considerar progressivo o nacionalismo de países dominados e apoiá-lo de forma incondicional na luta contra o imperialismo, o marxismo, ele mesmo, não é nacionalista, ao contrário, é internacionalista.

A questão nacional e colonial assumiu muito peso a partir do advento do imperialismo, sistema que Marx e Engels apenas vislumbraram, e que dominou todo o planeta, sufocando as diversas nações atrasadas, antes delas constituirem-se como nações e tendo que formar-se como nação em luta revolucionária contra o imperialismo nascente.

Assim, Marx e Engels ingressam na luta, apoiados na visão do mundo expressa no Manifesto Comunista, onde a luta nacional, burguesa por excelência, perderia peso diante da luta internacional do proletariado, que libertaria as colônias no mesmo dia em que tomasse o poder nos países centrais, e a revolução socialista europeia tornaria desnecessária a revolução nos países “atrasados”.

Neste esquema, os povos colonizados, “bárbaros e semi-bárbáros”, tinham um papel secundário, coadjuvante, frente aos seus irmãos proletários da Europa central.

Porém, a luta de classes mundial, que tomou um rumo oposto ao previsto, foi mostrando a Marx e Engels novas fronteiras da revolução e da contrarrevolução.

O primeiro alerta veio no papel cumprido pela burguesia nas revoluções de 1848, onde ela, ao contrário de liderar a nação na luta pela derrubada da monarquia, já não queria liquidar o velho regime e tentou utilizar as velhas formas monárquicas em combinação com seu poder econômico dominante. A burguesia já temia mais o proletariado nascente que a monarquia moribunda e tratou de utilizar os resquícios feudais para sua dominação futura.

Essa metodologia de subordinar os sistemas pré-capitalistas a serviço do novo sistema já vinha sendo usado em grande escala nas colônias desde o século XV com êxito.

Em 1848, uma onda revolucionária varreu toda a Europa. As revoluções se sucederam em cadeia na França, Hungria, Alemanha, Áustria, Itália. A burguesia se recusou a dirigir sua própria revolução, que se desenrolava contra ela. Mais que isso, a burguesia se colocou à cabeça da contrarrevolução. A classe trabalhadora ainda não contava com experiência política e organização suficiente para assumir o poder. Isto ficou bem patente na revolução de junho de 1848, na França, que segundo Engels, “Por toda a parte a revolução de então foi obra da classe operária; foi esta que levantou as barricadas e que pagou com a vida.[18]. Na revolução austríaca de 1848, o proletariado derrubou a monarquia, expulsou as tropas da capital, e a burguesia se recusou a assumir o poder resultante de uma revolução. O país ficou desgovernado e mesmo assim, o proletariado não tomou o poder.

A partir de 1848, Marx afirmou que a burguesia era incapaz de realizar a revolução contra o feudalismo e que a classe trabalhadora devia transformar a revolução burguesa em uma revolução proletária:

Ao passo que a pequena burguesia democrática quer levar a termo a revolução o mais rápido possível (…) é nosso interesse e tarefa tornar a revolução permanente até que as classes mais ou menos proprietárias tenham sido retiradas de suas posições de domínio, até que o proletariado tenha conquistado o poder estatal e até que a união dos proletários tenha avançado o bastante – não apenas em um país, mas em todos os principais países do mundo – para que a competição entre os proletários destes países cesse e pelo menos todas as forças de produção decisivas estejam concentradas nas mãos dos trabalhadores.

(…)

Mas a máxima contribuição para a vitória final será feita pelos próprios operários alemães, tomando consciência dos seus interesses de classe, ocupando o quanto antes uma posição independente de partido e impedindo que as frases hipócritas dos democratas pequeno-burgueses os afastem por um instante sequer da tarefa de organizar com toda independência o partido do proletariado. Seu grito de guerra há de ser: a revolução permanente.” [19]

Porém, o proletariado inglês, adormecido pelas concessões econômicas advindas do monopólio industrial da Inglaterra no mundo, não realizou nenhuma revolução.

A derrota das revoluções de 1848 na Europa abriu um largo intervalo de revoluções nos países centrais até 1918, quando estourou a revolução alemã. Uma excessão foi a Comuna de Paris, em 1871, onde os operários tomaram o poder por dois meses numa das principais cidades do mundo. Foi uma espécie de antecipação da revolução socialista e indicou uma transição da época da revolução democrático-burguesa para a época da revolução proletária. Demonstrou a dinâmica de transformação da revolução democrática em socialista. Demonstrou também a mudança do sujeito social da revolução, onde o proletariado, diante da covardia da burguesia e da pequena burguesia, assumiu a direção da revolução.

As lutas dos povos colonizados começaram a chamar a atenção de Marx e Engels, que comentaram os principais eventos da luta de classes mundial, partindo de artigos publicados no jornal norte-americano New York Daily Tribune, entre 1853 e 1861.

Marx e Engels analisaram a revolução chinesa, que começou em 1851, sob a forma de uma guerra camponesa, que aboliu a grande propriedade feudal e derrubou a dinastia Manchu. Esta revolução terminou com a derrota da China e a invasão armada do país pelos exércitos da Inglaterra, da França e Estados Unidos, em 1864, que se aliaram aos senhores feudais para derrotar a revolução chinesa e impor a abertura dos portos ao comércio estrangeiro e a semicolonização da China.

Aqui, as burguesias dos países capitalistas centrais já atuaram subordinando, pela violência, os países atrasados do ponto de vista econômico. Com isso, prepararam as condições objetivas da revolução mundial ao atar os países coloniais e semicoloniais aos países adiantados, através da dominação econômica, política, social e cultural:

Em resumo, em lugar de falarmos de moralidade a respeito das terríveis atrocidades dos chineses, como faz a denodada imprensa inglesa, será melhor reconhecermos que se trata de uma guerra pro aris et focis[frase latina que significa, literalmente, “pelos nossos altares e lares”], uma guerra popular pela conservação da nacionalidade chinesa, com todos os seus preconceitos ultrajantes, a sua estupidez, a ignorância sabida e o barbarismo pedante, se quiserem, mas apesar de tudo uma guerra popular. E numa guerra popular, os meios utilizados pela nação insurreta não podem ser avaliados pelas regras vulgares…” [20]

Pela primeira vez, Engels usou o termo “guerra nacional e popular” para os países coloniais e semicoloniais, no sentido de expulsão dos estrangeiros que dominavam a China.

No mesmo ano de 1857, um mês depois, Marx vai usar a mesma expressão para designar a revolta dos cipaios (militares indianos que dirigiram uma insurreição):

Mas, nos últimos 10 anos, foi adotado um novo princípio no Governo da Índia – o princípio da destruição da nacionalidade. O princípio foi realizado através da destruição pela força dos príncipes nativos, pela perturbação da instituiçãoda propriedade e pela interferência na religião do povo. (…) A partir destas premissas, chega a conclusão de que os atuais incidentes na Índia não correspondem a um motim militar, mas a uma revolta nacional, na qual os cipaios são apenas o instrumento atuante.”[21]

Também, pela primeira vez Marx vai falar sobre a luta pela “independência nacional” dos países pobres:

Em inglês corrente: porque o exército britânico se tinha apoderado de Lucknow, o Governo sentia-se no direito de confiscar toda a terra de Oudh que ainda não tinha conquistado? Porque os soldados nativos a soldo dos ingleses se tinham amotinado, os naturais de Oudh, subjugados pela força ao domínio britânico não tinham o direito de se rebelar e de lutar pela própria independência nacional?” [22]

Partindo destes acontecimentos da revolução internacional, Marx e Engels começaram a ver os fenômenos transicionais e contraditórios, ou seja, revoluções burguesas cujas burguesias se recusaram a dirigir e revoluções anticoloniais em “países não maduros” do ponto de vista capitalista.

Por isso, começam a fazer uma conexão entre a revolução anticolonial com a revolução nos países “civilizados”, vislumbrando os elementos desiguais e combinados no processo revolucionário mundial:

Agora, que a Inglaterra originou a revolução na China, a questão está em saber como é que, a seu tempo, essa revolução atuará sobre a Inglaterra e, através da Inglaterra, sobre a Europa.”[23]

Mas, até aqui os dois viam mais os efeitos recíprocos da crise econômica internacional agindo sobre os países adiantados e atrasados do que uma mudança de opinião sobre as relações revolucionárias entre países adiantados e países “semi-civilizados”.

Essa mudança vai ocorrer a partir de 1864, com a participação efetiva de Marx e Engels, via Associação Internacional dos Trabalhadores, na “questão irlandesa”:

Durante muito tempo acreditei que seria possível derrubar o regime irlandês através do ascenso da classe operária inglesa. Sempre expressei este ponto de vista no New-York Tribune. Um estudo mais aprofundado convenceu-me presentemente do contrario. A classe operária inglesa nunca concretizará nada antes de se livrar da Irlanda. É por isto que a questão irlandesa é tão importante para o movimento social em geral.” [24]

A princípio foi tratado como uma questão de solidariedade internacional, pela anistia dos prisioneiros políticos irlandeses, mas depois se converteu numa fonte de nova elaboração teórica e política.

Pedimos desculpas por citar tão extensamente esta carta de Marx, de 1870, que trata especificamente sobre a ”relação da luta nacional irlandesa com a emancipação da classe operária”:

“Depois de me ter ocupado da questão irlandesa durante muitos anos, cheguei à conclusão de que o golpe decisivo contra as classes dominantes inglesas (e ele será decisivo para o movimento operário de todo o mundo) não pode ser desferido em Inglaterra, tem que ser desferido só na Irlanda.

No dia 1 de Janeiro de 1870, o congresso publicou uma circular confidencial que me chegou às mãos em francês …sobre a relação da luta nacional irlandesa com a emancipação da classe operaria e, portanto, sobre a atitude que a Associação Internacional deve tomar no que diz respeito à questão irlandesa.

Vou apresentar-vos aqui apenas os pontos decisivos, mas muito resumidamente.

A Irlanda é o baluarte da aristocracia fundiária inglesa. A exploração do país não é somente uma das principais fontes do bem-estar material da aristocracia: é a sua maior força moral. Ela representa de fato o domínio da Inglaterra sobre a Irlanda. A Irlanda é por consequência o grande meio através do qual a aristocracia inglesa mantem o seu domínio sobre a própria Inglaterra.

Se, por outro lado, o exército e a polícia ingleses tivessem que se afastar amanhã da Irlanda, teríamos imediatamente uma revolução agraria naquele País. Mas a queda da aristocracia inglesa na Irlanda causa, como resultado inevitável, sua queda na Inglaterra. E isto preencheria a condição preliminar para a revolução proletária em Inglaterra. A destruição da aristocracia fundiária na Irlanda é uma operação infinitamente mais fácil do que na própria Inglaterra, porque na Irlanda a questão da terra tem sido até agora a forma exclusiva da questão social, porque é uma questão de existência, de vida ou de morte, para a imensa maioria do povo irlandês e porque ao mesmo tempo ela é inseparável da questão nacional. Isto abstraindo de os irlandeses serem, por carácter, muito mais apaixonados e revolucionários do que os ingleses.”

(…)

“… a Irlanda fornece permanentemente o seu próprio excedente ao mercado de trabalho inglês, fazendo assim descer os salários e a condição moral e material da classe operária inglesa.

E o mais importante de tudo! Todos os centros industriais e comerciais da Inglaterra possuem agora uma classe operária dividida em dois campos hostis, o dos proletários ingleses e o dos proletários irlandeses. O operário inglês comum odeia o operário irlandês como um competidor que faz descer o seu nível de vida. Em relação ao operário irlandês, ele sente-se membro da nação dominante, transformando-se assim num instrumento dos aristocratas e capitalistas do seu país contra a Irlanda, fortalecendo deste modo o seu domínio sobre si próprio. É ele quem alimenta os preconceitos religiosos, sociais e nacionais contra o operário irlandês. A sua atitude para com ele é muito semelhante à dos “brancos pobres” para com os “negros” nos antigos estados escravagistas dos EUA. O irlandês paga-lhe com juros e na mesma moeda. Para ele, o operário inglês é o cúmplice imediato e o instrumento estúpido do domínio inglês sobre a Irlanda.

Este antagonismo é mantido vivo artificialmente e intensificado pela imprensa, pelos padres, pelos jornais humorísticos, em suma, por todos os meios ao dispor das classes dominantes. Este antagonismo é o segredo da impotência da classe operaria inglesa, a despeito da sua organização. É o segredo por meio do qual a classe capitalista mantém o seu poder e esta classe tem consciência dele.”

(…)

“Sendo a Inglaterra a metrópole do capital, a potência que até agora tem dominado o mercado mundial, ela é, de momento, o país mais importante para a revolução dos operários e, além disso, o único país onde as condições materiais para esta revolução se desenvolverem até um certo grau de maturidade. Por conseguinte, apressar a revolução social em Inglaterra é o objetivo mais importante da Associação Operária Internacional. O único meio de a apressar é por a Irlanda independente.

Portanto, é tarefa da Internacional, em toda a parte, colocar em primeiro plano o conflito entre a Inglaterra e a Irlanda, pondo-se abertamente do lado da Irlanda. E é tarefa do Comitê Central em Londres despertar a consciência dos operários ingleses para o fato de que, para eles, a emancipação nacional da Irlanda não é uma questão de justiça abstrata ou de sentimentos humanitaristas, mas a primeira condição para a sua própria emancipação social.[25]

Esta carta revelou uma mudança de posição de Marx e Engels.

Em primeiro lugar porque coloca a revolução anticolonial como prólogo da revolução socialista nos países europeus centrais, invertendo os termos do processo revolucionário, pelo menos no que se refere à Inglaterra, devido ao surgimento da aristocracia operária, um setor da classe trabalhadora que, por sua condição de vida melhor, foi cooptada pela burguesia inglesa.

O golpe deve ser desferido, necessariamente, desde as colônias e semicolonias, já que a formação desta aristocracia operária vai se solidificar não apenas na Inglaterra, chegando aos principais países imperialistas (Inglaterra, França, Alemanha e Estados Unidos).

Marx e Engels, a partir de 1864 vão apresentar uma visão diferente da que apresentaram no Manifesto Comunista, incorporando as revoluções anticolonais como parte importante da revolução social, isto é, as revoluções de independência nacional dos povos atrasados do ponto de vista econômico como estopim da revolução nas metrópoles da Europa.

E isto reproduz exatamente como se deu o processo revolucionário na maior parte do tempo de vida política de Marx e Engels, entre 1848 e 1895: o eixo revolucionário se deslocou dos países centrais capitalistas para as colônias e semicolônias e, depois de um breve intervalo entre 1918 e 1945, continuou até os dias de hoje.

As revoluções vieram de fora para dentro, primeiro rompendo-se os elos débeis da cadeia imperialista, introduzindo a revolução nas metrópoles.

Esta ligação dialética da revolução de independência nacional, anticolonial, com a revolução socialista, esta combinação de revoluções diferentes e a mescla de tarefas de diferentes revoluções começou a ser vislumbrada por Marx e Engels a partir da questão irlandesa, em lampejos de uma revolução permanente, tornando a luta contra as opressões nacional, racial e de gênero (tarefas da revolução democrático burguesa) parte importante e indissolúvel da emancipação social, isto é, da revolução socialista.

Isto ficou claro quando Marx, em O Capital, referindo-se a opressão dos negros nos Estados Unidos, disse que “O Trabalho não pode emancipar-se numa pele branca enquanto for sugado à pele negra”.

Indo mais longe, Marx afirma que o antagonismo entre a classe operária inglesa e irlandesa “é o segredo da impotência da classe operária inglesa”.

De uma forma ou de outra, este antagonismo foi exacerbado na atualidade, no antagonismo entre trabalhadores de colarinho branco e operários da produção, entre trabalhadores do país e imigrantes, entre trabalhadores diretos e terceirizados, entre trabalhadores brancos e negros, entre trabalhadores homens e mulheres. Uns usados contra os outros permanentemente, para perpetuar a exploração capitalista sobre o planeta.

A partir da luta revolucionária dos irlandeses, Marx e Engels elaboraram uma visão muito mais completa do processo revolucionário, unindo indissoluvelmente a questão da independência nacional à revolução socialista.

“Estas convulsões violentas necessariamente devem ocorrer nas extremidades do organismo burguês mais do que em seu coração, onde as possibilidades de restauração são maiores.” [26]

Para eles, a primeira condição para a emancipação da classe trabalhadora da Inglaterra passava por garantir a independência nacional da Irlanda ou, dito de outra forma, a revolução de independência nacional poderia começar em um país “atrasado”, como faísca, e se completar com a “revolução proletária no Ocidente”.

Uma mostra deste desenvolvimento políticos de ambos está expressa no prefácio à edição russa do Manifesto Comunista, em 1882, onde um país “atrasado” podia saltar etapas no seu desenvolvimento:

“O Manifesto Comunista tinha por tarefa proclamar a inevitavelmente iminente dissolução da propriedade burguesa moderna. Mas na Rússia encontramos, face à trapaça capitalista em rápido florescimento e à propriedade fundiária burguesa que precisamente só agora se começa a desenvolver, mais de metade do solo na posse comum dos camponeses. Pergunta-se agora: poderá a comunidade, aldeia russa — uma forma, ainda que fortemente minada, da antiquíssima posse comum do solo — transitar imediatamente para a [forma] superior da posse comum comunista? Ou, inversamente, terá de passar primeiro pelo mesmo processo de dissolução que constitui o desenvolvimento histórico do Ocidente? A única resposta a isto que hoje em dia é possível é esta: se a revolução russa se tornar o sinal de uma revolução proletária no Ocidente, de tal modo que ambas se completem, a actual propriedade comum russa do solo pode servir de ponto de partida de um desenvolvimento comunista.”[27]

 

Notas   [ + ]

1. Não é assim, companheiro”, do guaraní falado no Paraguai.
2. Originalmente havia datado esta mudança em 1864, porém, em discussões com Gustavo Machado, que publicará brevemente o livro Marx e a história, pela editora Sundermann, ele observou que Marx mudou de opinião a partir de O Capital, em 1867, onde introduziu na sua visão a Acumulação Primitiva, concluindo que o desenvolvimento dos países atrasados não se daria pela troca de mercadorias manufaturadas com os países adiantados. Tanto Gustavo quanto eu, redigimos estes estudos, praticamente no mesmo período, chegando às mesmas conclusões, por vias distintas.
3. Manifesto Comunista, 1848, pagina 3.
4. F. Engels, El descubrimento de América y las luchas de los pueblos, resumo do discurso pronunciado na Sociedade de Cultura Operária de Londres, em 30 de novembro de 1847, publicado em 1919 segundo as atas originais de Max Nettlau.
5. Friedrich Engels, “Die Bewegungen von 1847”, Obras completas de Marx e Engels em alemão, pagina 494.
6. Karl Marx em “O domínio britânico na Índia”, 10 de junho de 1853, publicado em “Marx e Engels sobre o colonialismo”, tomo I pp 47-48
7. Carta de Marx a Engels, 14 de junho de 1853, publicado em “Marx e Engels sobre o colonialismo”, tomo II pp 186
8. Karl Marx em “Os resultados prováveis do domínio britânico na Índia”, 20 de julho de 1853, publicado em “Marx e Engels sobre o colonialismo”, tomo I pp 101
9. Karl Marx em “A Companhia das Índias Orientais – a sua historia e seus efeitos”, 24 de junho de 1853, publicado em “Marx e Engels sobre o colonialismo”, tomo I p. 61
10. Karl Marx em “A questão indiana e o direito do arrendatário irlandês”, 28 de junho de 1853, publicado em “Marx e Engels sobre o colonialismo”, tomo I pp 65 e Carta de Engels a Marx, de 23 de maio de 1856, idem, tomo II pp. 189.
11. Karl Marx, O Capital, volume I, capítulo XXXI, Gênese do capitalista industrial, publicado em “Marx e Engels sobre o colonialismo”, tomo III pp 167.
12. Carta de Engels a Marx em 19 de janeiro de 1780, publicado em “Marx e Engels sobre o colonialismo”, tomo II pp 207.
13. Friedrich Engels, em A origem da família da propriedade privada e do estado, escrito em março-maio e publicado em outubro de 1884. Marx & Engels Werk, tomo XXI, página 32.
14. Manifesto Comunista, 1848, pagina 11.
15. Lênin, O direito das nações a autodeterminação, fevereiro de 1914, tomo 25 pg 255.
16. Manifesto Comunista, 1848, pagina 7.
17. Manifesto Comunista, 1848, pagina 11.
18. Friedrich Engels, prefácio a edição italiana do Manifesto Comunista de 1893.
19. K. Marx e F. Engels, Mensagem ao Comitê Central da Liga dos Comunistas, março de 1850.
20. F. Engels, A Pérsia e a China, 22 de maio de 1857. Publicado em Sobre o colonialismo, Tomo I, pp.149, 150, 151.
21. Karl Marx, A questão Indiana, 28 de junho de 1857. Publicado em Sobre o colonialismo, Tomo Tomo I pp.168.
22. Karl Marx, A anexação de Oudh, 14 de maio de 1858. Publicado em Sobre o colonialismo, Tomo II, p.22
23. Karl Marx, Revolução na China e na Europa, 20 de maio de 1853, Publicado em Sobre o colonialismo, Tomo I, p. 24.
24. Carta de Marx a Engels, 10 de dezembro de 1869, pg 204 do tomo II, Sobre o colonialismo.
25. Carta de K. Marx a S. Meyer e A. Vogt, 9 de abril de 1870. Publicada em Sobre o Colonialismo, Tomo II p. 207. As palavras grifadas foram feitas pelo próprio Marx.
26. K. Marx e F. Engels, A luta de classes na França, citado por Michael Lowy em A política do desenvolvimento desigual e combinado (a teoria da revolução permanente).
27. Marx e Engels. Prefácio ao Manifesto Comunista, edição russa de 1882.
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