O mito do capitalismo como “sociedade de consumo”

Popularizou-se no século XX a ideia do capitalismo como uma “sociedade de consumo”. Esta concepção, completamente ausente em Marx, apesar de comumente atribuída à ele, mostrou ter longo alcance, estando presente nas elaborações de uma grande gama de autores que vai deste os pais fundadores da Escola de Frankfurt, Adorno e Horkheimer, passando por Hanna Arendt até autores mais recentes como Fredric Jameson e Zygmunt Bauman. De fato, nada parece mais coerente do que o capitalismo considerado como e enquanto uma sociedade de consumo, afinal, a irrefreável marcha do capital rumo a uma maior valorização faz multiplicar, dia a pós dia, a quantidade e diversidade de mercadorias com as quais nos defrontamos e, no mais das vezes, estas se inserem em nosso cotidiano como uma necessidade que não mais é possível evitar.

Apesar deste fatos óbvios, sustentamos que tal concepção é apenas superficial e, enquanto tal, falsa e enganosa. Tal ilusão, de que vivemos na sociedade de consumo, é produzida, antes de mais nada, em função das relações sociais efetivas entre os indivíduos na forma social capitalista estarem veladas sob a forma rude e natural das mercadorias e do dinheiro e, por este motivo, o que vemos diretamente é apenas a ampliação quantitativa e qualitativa das mercadorias consideradas em si mesmas, abstraindo o processo social que as fizeram emergir. Vejamos a questão mais de perto.

Em O Capital, Marx coloca o consumo como a realização do valor de uso das mercadorias. Apesar da mercadoria possuir um valor de uso pelo simples fato de satisfazer uma necessidade humana de qualquer tipo, possibilidade de satisfação que está dada em sua própria corporalidade, em sua forma natural; a realização deste valor de uso está dada em seu consumo, ato este que é posterior a sua troca, ou seja, a realização do valor de troca. Isto significa que se o valor de troca não se realizar fica também sem realizar o seu valor de uso. Enquanto mercadoria, para atingir a esfera do consumo é necessario, antes, superar a esfera das trocas.

Já neste momento abstrato da exposição de O Capital, o consumo aparece como subordinado a esfera das trocas, ainda que o valor de uso seja o suporte material do valor de troca sob a forma capital e o conteúdo material da riqueza em toda e qualquer forma de sociedade. Mais adiante, Marx analisa a fórmula da circulação simples de mercadorias: M-D-M (mercadoria-dinheiro-mercadoria). Nesta fórmula, o dinheiro aparece como mero mediador do processo, meio circulante, e sua finalidade é o valor de uso, isto é, a forma M-D-M tem por objetivo final o consumo e seu limite é a satisfação das necessidades dos consumidores e o valor de uso. Por este motivo, esta forma será sintetizada por Marx como: verder para comprar. Mas a forma M-D-M é apenas um momento abstrato e superficial das relações sociais capitalistas, visivel na esfera da troca de mercadorias. Por este motivo, Marx passa a analisar a forma D-M-D’ que traz consigo a especificidade do processo de troca de mercadorias sob a forma capital, por este motivo, esta fórmula é designada de forma geral do capital.

Na fórmula geral do capital podem ser observadas transformações fundamentais. A mercadoria é comprada para ser revendida e não mais para satisfazer uma necessidade individual. O dinheiro não funciona mais exclusivamente como moeda, mas como forma universal da riqueza, ou seja, é colocado na circulação pelo seu proprietário para dele se apoderar novamente. O que impele a realização deste circuito não é mais o valor de uso, mas o valor de troca. Neste caminho, valorizar o valor infinitamente se torna a finalidade absoluta. Em suma, a satisfação das necessidades de consumo e o valor de uso transmutam-se em meros meios deste movimento insaciável de auto-valorização.

É evidente que o valor de uso e a realização de necessidades humanas, historicamente constituídas, através do consumo não são literalmente jogadas para fora no modo de produção capitalista. O que diferencia esta forma social de todas as anteriores é que agora a produção de valores de uso não é mais subordinada pelas necessidades humanas, mas a valorização do valor. Em todas relações sociais anteriores ao capital predomina a produção voltada para o uso imediato dos produtos do trabalho, ou seja, o que rege a produção é o valor de uso e a prestação de serviços em espécie. Não sem razão, Marx constata que “nunca encontramos entre os antigos uma investigação sobre qual forma de propriedade da terra, etc., é a mais produtiva, qual cria a maior riqueza”, pois a “riqueza não aparece como o objetivo da produção” (MARX, 2011, p. 399). Todo esforço de investigação dos indivíduos imersos nestas formas sociais pretéritas se centram em atributos qualitativos, quer seja dos produtos criados pelo trabalho, enquanto valores de uso, quer seja dos indivíduos mesmos, como, por exemplo, a reflexão recorrente no mundo greco-romano sobre qual modo de sociedade cria os melhores cidadãos. Isto é assim, ainda que a riqueza possa aparecer, excepcionalmente, com o fim em si mesma, como nos povos exclusivamente mercantis “que vivem nos poros do mundo antigo”(MARX, 2011, p. 399). Neste cenário a riqueza é sempre “algo realizado em coisas, em produtos materiais, com os quais o homem se defronta como sujeito” (MARX, 2011, p. 399). Ou seja, a riqueza se apresenta sempre em seu aspecto material, em sua configuração objetiva, em suas determinações concretas, diversamente da sociedade burguesa em que esta é representada na abstrata figura do dinheiro. Mesmo a exploração e comando sobre o trabalho alheio tem por finalidade o gozo privado, a satisfação das necessidades dos respectivos proprietários. Mas não somente. Nas formas sociais que precederam o capital, frente a riqueza considerada em sua determinação material, “o homem se defronta como sujeito”. Já diante do capital, o homem que trabalha e o próprio capitalista figuram tão somente como um dos seus momentos. O transcurso rotineiro do processo de acumulação de capital ocorre as costas dos produtores e o capital se manifesta com a força de um sujeito automático. Em suma, as coisas de valor não mais se relacionam entre si como um meio para atender as necessidades humanas, ao contrário, os homens se relacionam entre si para atender as necessidades de valorização do capital e, por este motivo, não mais se defronta com os produtos materiais como sujeito, antes, como algo externo, estranho, alheio a sua vontade.

Como se vê, para além das falsas aparências que emergem da esfera da circulação simples de mercadorias quando esta é autonomizada, todas as formas sociais que precederam ao capital é que podem ser chamadas de sociedade de consumo. Por outro lado, nada mais falso que designar o próprio capital de sociedade de consumo. Estamos diante da sociedade da troca, do dinheiro enquanto forma universal e autonomizada da riqueza, regida pela sua acumulação de capital através da extração de mais-valia. De fato, em nenhum outro momento da historia humana o consumo foi tão pouco valorizado como nos dias de hoje. A enorme maioria dos indivíduos se satisfaz ao comprar esta ou aquela mercadoria e o fetiche se esvai assim que esta é adquirida. Nos Estados Unidos, por exemplo, a pátria do “consumo”, é comum relatos de casas cujas garagens são abarrotadas de mercadorias compradas e jamais consumidas. O sonho que povoa o imaginário da quase totalidade das pessoas sob esta forma social, capitalistas ou trabalhadores, não é a posse e usufruto de nenhum bem em particular, mas a quantidade de digitos de seu extrato bancário.

Riqueza e gozo na Idade Média

Ilustramos esta diferença entre as sociedades do passado, sociedades de consumo, e a sociedade presente, sociedade da acumulação, com o clássico livro O Declínio da Idade Médiade Johan Huizinga. Nesta obra, o leitor desavisado é tomado pelo espanto ao se deparar com o profundo contraste do mundo medieval frente ao moderno. Paradoxalmente, na idade dita obscura, as coisas e pessoas são consideradas em conformidade com suas propriedades imanentes, ainda que parcialmente obscurecidas pelo cristianismo. Neste cenário, o “contraste entre o sofrimento e a alegria, entre a adversidade e a felicidade, aparecia mais forte. Todas as experiências tinham ainda para os homens o caráter direto e absoluto do prazer e da dor na vida infantil” (HUIZINGA, 1996, p. 9). Distante da indiferença generalizada para com tudo e todos, qualquer “conhecimento, qualquer ação, estavam ainda integrados em formas expressivas e solenes, que os elevavam à dignidade de um ritual” (HUIZINGA, 1996, p. 9). “Nós, hoje em dia, dificilmente compreendemos a que ponto eram então apreciados um casaco de peles, uma boa lareira aberta, um leito macio ou um copo de vinho” (HUIZINGA, 1996, p. 9) e, tão logo nos defrontemos com esta situação, logo se esvai o mito de que vivemos em uma sociedade do consumo. Diversamente, o desfrute da riqueza produzida pelo trabalho humano nunca teve tão pouco valor frente a posse do valor de troca universal: o dinheiro.

Em contraposição à indiferença generalizada que verificamos em nossa sociedade contemporânea, no mundo medieval narrado por Huizinga, os indivíduos estão sujeitos a uma efusão de emoções, pulsões, lágrimas a partir das relações sociais que estabelecem uns com os outros. Nas prédicas dos padres e curas, nas execuções públicas, nas procissões, nos duelos judiciais, na eleição do papa, nas solenidades de caráter político “as lágrimas eram então consideradas elegantes e honrosas” (HUIZINGA, 1996, p. 14-15). “Numa época cheia de reverência religiosa em face de toda a pompa ou solenidade, esta propensão aceita-se como perfeitamente natural” (HUIZINGA, 1996, p. 15). Por mesquinhos e fantasiosos que sejam o conteúdo deste estado de constante exacerbação emocional, o certo é, que no ocaso da idade das trevas, os indivíduos ainda não se tornaram autômatos de um sistema social que se desenvolve a suas costas.

“O poder da riqueza é direto e primitivo; não é enfraquecido pelo mecanismo duma automática e invisível acumulação através dos investimentos; a satisfação de ser rico tem fundamento no luxo e na dissipação ou na bruta avareza” (HUIZINGA, 1996, p. 27-28). Isto significa que a satisfação de ser rico na Idade Média se manifesta no desfrute e gozo dos valores de uso produzidos e não no culto da abstrata acumulação de capital. Como se nota, à luz do fenômeno mistificador, fetichista e obscuro do “deus” dinheiro-capital no interior das relações sociais capitalistas, o Deus cristão medieval se mostra quase como profano.

Neste sentido, nada pode ser mais falso que conceber a noção de consumo como motor e motivo de sustentação da sociedade capitalista tal como a conhecemos. Este equívoco tem outras consequências. A noção de consumo tem seus limites no individuo e, por este motivo, ofusca as relações sociais que se encontram para além de indivíduos isolados. Não é casual que o autor pós-moderno Zygmunt Bauman tenha alterado a fórmula da sociedade de consumo pela Sociedade de Consumidores. A análise das relações sociais objetivas entre pessoas se deslocou para o âmbito da subjetividade dos indivíduos, em que a diferença entre necessidade e desejo ganha a tônica da analise. Em caminho contrário à Marx, para Bauman o consumo tem se convertido em propósito de existência (BAUMAN, 2008, p.38).

Quem quiser empregar o termo “sociedade de consumo” para designar a especificidade da sociedade capitalista, que o faça. Mas que se deixe claro que tal ideia é a exata antípoda do que pensava Marx à este respeito.

 


Referências

MARX, K. O Capital – Livro I. Rio de Janeiro: Boitempo Editorial, 2013.

MARX, K. Grundrisse. Rio de Janeiro: Boitempo Editorial, 2011.

HUIZINGA, J. O declínio da Idade Média. Lisboa: Ulisseia, 1996.

BAUMAN, Zygmunt. Vida para Consumo: a transformação das pessoas em mercadorias. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

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