O trabalho reprodutivo de Silvia Federici: evolução ou ruptura com o marxismo?

Nesse artigo faremos uma resenha crítica dos livros de Silvia Federici: O patriarcado do salário. Críticas feministas ao marxismo e, também: Calibã e a Bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. O objetivo, todavia, não é abordar todos aspectos contidos em tais obras, mas a sua relação com o pensamento de Marx. Apesar disso é importante destacar que não gastaremos nosso tempo para mostrar que a elaboração de Silvia Federici não condiz com aquela apresentada por Marx em O Capital. Afinal, a autora está plenamente consciente disso. A sua leitura procura reformular conscientemente vários aspectos centrais da obra principal de Marx, porque estariam incorretos. Esses aspectos teriam como núcleo central o que a autora denomina trabalho reprodutivo. No entanto, Federici não pretende jogar pela janela toda obra de Marx, ao contrário, parte do pressuposto de que, ao menos em alguns de seus contornos fundamentais, O Capital constitui um ponto de partida válido, mas que deve ser rearranjado naquilo que ela considera seu principal erro: o papel do trabalho doméstico no interior da sociedade capitalista, enquanto produto genuíno dessa forma social e fomentada por ela.

O que procuraremos mostrar, neste artigo, é que, tendo em vista os objetivos de Marx em O Capital, todas as reformulações e alterações propostas por Federici são desprovidas de sentido.

É importante, contudo, fazermos um alerta antes de seguirmos adiante. Nosso objetivo não é, em sentido algum, negar a opressão da mulher relacionado aos temas do que Federici denomina de trabalho reprodutivo e trabalho doméstico. É um fato inquestionável e da maior relevância que a mulher sofre brutal opressão no âmbito doméstico na sociedade capitalista. Disto não se segue, obviamente, que toda e qualquer elaboração que tenha tais temas como alvo deve ser referendada. Tomemos o caso do próprio Marx como exemplo. Ele surgiu lutando contra inúmeras concepções socialistas que reconheciam e denunciavam a exploração dos trabalhadores. Apesar disso, ao compreenderem de forma equivocada a forma e natureza dessa exploração, apontavam saídas igualmente equivocadas. É exclusivamente nesse quadro que deve ser entendida a crítica que se segue as elaborações de Sílvia Federici.

Cabe, portanto, alguns comentários prévios sobre O Capital de Marx, para avaliarmos em que medida são válidos os elementos colocados pela autora italiana.

O que Marx procura realizar em O Capital
Uma das críticas comumente direcionadas a O Capital de Marx não foi aquilo que ele examinou e efetivamente analisou em sua obra, mas o que deixou de analisar. A ideia geral é a seguinte: já que está em análise o modo de produção capitalista, tudo aquilo que envolve este modo de produção deveria estar ali contido. Fosse esse o caso, a empreitada de Marx seria, evidentemente, impossível.

Em O Capital, Marx não está preocupado em analisar nenhuma realidade particular, local ou nacional. Não lhe preocupa a Inglaterra ou França do século XIX, nem qualquer outro caso. Sua análise possui abrangência maior: são os aspectos necessários do modo de produção capitalista, presentes em todo lugar e tempo em que domina esse modo de produção. Esses aspectos são duplamente importantes para um autor que tem por finalidade de sua obra, e vida, a destruição desse modo de produção. Principalmente por duas razões.

Em primeiro lugar, porque tais aspectos, ao figurarem em toda e qualquer forma capitalista de sociedade, devem ser levados em conta em toda e qualquer análise particular. Em segundo lugar, mostram que laços devem ser necessariamente dissolvidos se quisermos destruir essa forma de sociedade. É porque o capitalismo se desenvolve sob a base dessas relações universais e necessárias que torna não apenas possível, como necessário, uma organização socialista mundial, com objetivo de destruir esta forma de organização também mundial, levando em conta todas particularidades quando aplicado a um contexto particular, mas sem jamais perder de vista a base universal sob a qual se desenvolve cada particularidade.

Tomemos um exemplo. Preocupa a Marx em O Capital estudar e compreender a exploração do trabalho sob o capitalismo. Em particular, a mais-valia. Que tipo de relações possibilitam ao capitalista obter o trabalho excedente dos trabalhadores que emprega, mesmo partindo do pressuposto de que capitalistas e trabalhadores apareçam no mercado como pessoas juridicamente livres, cada qual vendendo sua mercadoria pelo seu valor? Como de uma troca de equivalentes, uma troca entre valores iguais, pode surgir exploração? A solução desse problema esclarece como o capitalismo funciona e se reproduz em todo em qualquer lugar e em qualquer momento do tempo. É claro que produção de mais-valia irá se ligar a outras especificidades locais e historicamente desenvolvidas de modo a permitir seu pleno desenvolvimento. A análise desses traços específicos, por exemplo: a questão indígena e negra no Brasil, a divisão dos trabalhadores em distintas nacionalidades em diversos países são igualmente importantes. Mas para entendermos como tais aspectos influem na dinâmica da produção de mais-valia, precisamos primeiro compreendermos a mais-valia. É esta a tarefa de O Capital: desvelar a estrutura geral e universal do modo de produção capitalista, de modo a servir de base para todas demais análises desse modo de produção.

Vejamos apenas algumas dessas categorias universais e necessárias que Marx desenvolve no Livro I de O Capital:

Mercadoria → Valor → Trabalho abstrato → Dinheiro → Capital → Classe trabalhadora e Classe Capitalista → Processo de valorização do valor → Mais-valia absoluta → Cooperação Industrial → Mais-valia relativa → Forma salário → Acumulação de Capital → Exército Industrial de Reserva e assim por diante.

Será que a essas categorias deveria ser agregada aquela do trabalho reprodutivo? É o que sustenta Silvia Federici. Vejamos em que consiste seu argumento.

O Capital em fragalhos
A tese de Silvia Federici é a seguinte: Marx abordou apenas a separação do campesinato da terra, sua separação dos meios de produção, tornando-os aptos a venderem sua força de trabalho como mercadoria, no entanto, não teria visto outra faceta da questão: o trabalho reprodutivo1. Este último diz respeito ao trabalho de produção e reprodução da força de trabalho, desenvolvido no âmbito doméstico, pelo trabalho não assalariado majoritariamente feminino. Em resumo, Marx teria desconsiderado o trabalho que possibilita a classe trabalhadora se reproduzir enquanto tal, no sentido de voltar a trabalhar depois de serem consumidos em fábricas ou escritórios. Não seria algo pré-capitalista, mas um desenvolvimento específico da sociedade capitalista, ainda não totalmente desenvolvido nos tempos de Marx, quando o trabalho doméstico e a família nuclear estavam incipientemente desenvolvidas.

Seria correta essa crítica de Federici? Para termos maior clareza a este respeito, iremos fazer algumas considerações sobre o modo como ela interpreta e analisa a obra principal de Marx.

É importante ter claro que Marx não sai por aí criando conceitos de nenhum tipo. Quando analisa e expõem a mais-valia ou o a acumulação de capital, Marx em absoluto não cria tais conceitos. O que ele faz é traduzir conceitualmente certos tipos de relações reais e necessárias que se dão no interior do modo de produção capitalista. Por isso, os conceitos não são uma escolha de nossa cabeça, mas definidos no interior deste modo de produção. Mas em todo seu livro, a autora italiana desconsidera esses aspectos. Antes de procurar compreender essa conexão interna, ela toma a obra em pedaços, sem conectar cada uma de suas partes, assumindo-as ou descartando-as de modo a justificar o que irá propor na sequência. Tomemos um exemplo modelar, nesse sentido.

Em seu livro O patriarcado do salário. Críticas feministas ao marxismo, Federici diz:

Se o trabalho reprodutivo só pode ser mecanizado em parte, o programa de Marx pelo qual a expansão da riqueza material depende da automação e a consequente redução do trabalho necessário são interrompidos, porque o trabalho doméstico e, principalmente, o cuidado de filhos, constitui a maior parte do trabalho neste planeta. O mesmo conceito de trabalho socialmente necessário perde muito de sua força de convicção. Como definir o trabalho socialmente necessário quando o maior e mais indispensável setor trabalhista do mundo não é sequer reconhecido como parte essencial do conceito? E que critérios e princípios governariam a organização do trabalho assistencial, sexual e procriativo, quando essas atividades não são consideradas parte do trabalho socialmente necessário? (pag. 91)

Como se vê, para Federici, o conceito de trabalho socialmente necessário enquanto medida do valor perde muito de sua eficácia quando consideramos o trabalho reprodutivo, já que não levaria em conta o maior setor trabalhista do mundo. Tal setor seria pouco afetado pela automação, além de ser gratuito e, portanto, não valorado pelo tempo de trabalho socialmente necessário. Esse conceito deveria ser, portanto, reformulado ou, talvez, até deixado de lado.

Mas vejamos. Do que exatamente está a falar Silvia Federici? O que é o tempo de trabalho socialmente necessário? Ora, é a medida do valor das mercadorias que se encontram e se equiparam umas com as outras no mercado. Sua medida surge do fato de que ao se compararem todas umas com as outras, as mercadorias se reduzem, na realidade, a única substância social comum que há entre elas: o trabalho genérico e abstrato, medido por unidades de tempo. Seguindo o próprio argumento de Federici, o trabalho reprodutivo seria o “produtor” da mercadoria força de trabalho. Ocorre que a autora ignora que o valor das mercadorias não é determinado pelo valor da força de trabalho. Tanto é assim que, no Brasil colônia, foi possível produzir mercadorias para sociedade capitalista, cujo valor é medido pelo tempo de trabalho socialmente necessário, com trabalho escravo. Ainda que Federici tenha razão e a força de trabalho fosse mesmo produzida pela atividade por ela denominada trabalho reprodutivo, isto não alteraria em absolutamente nada a medida do valor das mercadorias, pelo simples fato de que tal medida não é determinada pelo valor da força de trabalho. Vejamos mais detidamente a questão.

Quando Marx examina a medida do valor das mercadorias no Capítulo I de O Capital, a mercadoria força de trabalho ainda não surgiu, ela irá aparecer apenas no capítulo 4. E isto tem sua razão de ser. Conforme a exposição de Marx, o valor da força de trabalho não interfere em absolutamente nada na medida do valor das mercadorias, porque esta medida as mercadorias possuem em si mesmas, objetivamente, conforme o tempo socialmente necessário de trabalho para produzi-la. Atentemos ao fato de que a força de trabalho não constitui a imensidão de mercadorias que o capitalista acumula como capital. A força de trabalho é propriedade do trabalhador, é uma capacidade interna sua e materialmente inseparável dele mesmo. O capitalista não compra a propriedade da força de trabalho do trabalhador, mas o seu direito de uso por determinado tempo. O valor da força de trabalho não altera, portanto, em absolutamente nada o elemento de medida dos valores das mercadorias, o tempo de trabalho socialmente necessário, cujo processo ocorre independentemente do valor da força de trabalho2.

Mas Federici acompanha e comenta esse procedimento expositivo de Marx? Não. Ela mostra os equívocos na demonstração da medida do valor das mercadorias? Absolutamente não. Ela unicamente faz alusão de que nessa medida empregou-se a palavra “trabalho”: “tempo de trabalho socialmente necessário” e como Marx deixou de fora um desses tipos fundamentais de “trabalho”, o trabalho reprodutivo, segue-se que a determinação da medida de valor está incorreta. Ora, mas Federici mostra como este trabalho reprodutivo determina o valor das mercadorias? Nem uma só linha a este respeito.

Acontece que quem define o que é o trabalho no modo de produção capitalista não é a cabeça de Marx ou de qualquer outra pessoa, mas o próprio modo de produção capitalista. Não é nossa escolha. Ali, o trabalho, aquele que valoriza o valor do capitalista individual, é o consumo da força de trabalho no processo de produção de mercadorias. Não é o dispêndio genérico de energia, não é a realização de uma atividade qualquer, nem tampouco o quão importante tal atividade é para o próprio capital. Mas Federici responde a esta questão de um modo um tanto quanto estranho. Diz ela:

Cabe ressaltar que, ao afirmar que o trabalho que realizamos em casa é produção capitalista não estamos expressando o desejo de que este seja legitimado como parte das “forças produtivas”. Em outras palavras, não é um recurso ao moralismo. Somente do ponto de vista capitalista, ser produtivo é uma virtude moral, mesmo um imperativo moral. Do ponto de vista da classe trabalhadora, ser produtivo significa simplesmente ser explorado. (pag. 32-33) (grifo nosso)

Confessamos que incrédulos lemos a presente passagem várias vezes. O subjetivismo que a domina, e em outras tantas passagens, é assombroso. Ela diz não “ter o desejo” de legitimar o trabalho reprodutivo como parte das forças produtivas. Ora, mas não são os desejos de Silvia Federici que nos interessa. Queremos saber, como e de que forma o trabalho reprodutivo se apresenta objetivamente como trabalho para o capital e o valoriza. Mas ela denomina este procedimento de “moralismo”. Como assim? Significa que a acumulação de capital não existe? Que é um mero produto moral do capitalismo? Na frase seguinte, fica um pouco mais claro, na medida do possível, o que passa pela cabeça de nossa autora. Ser parte das forças produtivas é uma análise “do ponto de vista capitalista”. Ela está interessada no “ponto de vista da classe trabalhadora”. Este procedimento pode até parecer ser muito revolucionário, mas é bem o contrário. Vejamos.

Certamente é possível enxergar a forma social em que vivemos do “ponto de vista da classe capitalista” e também “do ponto de vista da classe trabalhadora”. Mas não se trata, de forma alguma, de uma análise subjetiva do processo visto sob dois pontos de vista diferentes. Para Marx “o ponto de vista da classe trabalhadora” é aquele que permite ver a sociedade capitalista em seu conjunto, sem tapar uma única parte, pois a classe trabalhadora não tem nada a esconder em função da própria posição que ocupa objetivamente. O “ponto de vista do capitalista”, no entanto, vê o processo unicamente do ponto de vista da circulação de mercadorias, esfera superficial da valorização do capital, esfera em que ele atua como agente direto na infinita busca de valorização de seu capital. Mas para Federici a situação é bem diversa. “O ponto de vista do capitalista” é um pedaço do processo. O “ponto de vista da classe trabalhadora” é outro pedaço. A ciência que ela propõem fazer é aquela que pega o pedaço que lhe interessa e apetece tendo em vistas seus interesses subjetivos.

Da perspectiva de Federici, “ser produtivo significa simplesmente ser explorado”, já que ser parte das “forças produtivas” é o pedaço que corresponde ao ponto de vista do capitalista. Com este procedimento estranhíssimo, a autora joga no lixo em uma tacada só toda análise de Marx do funcionamento interno da sociedade capitalista e retêm algo de absolutamente genérico: ser explorado, algo que não é suficiente sequer para distinguir o trabalhador assalariado de um escravo ou servo. Daí ela pode partir para sua análise específica do trabalho reprodutivo, desconectado de qualquer aspecto determinado da forma de sociedade que se propõem analisar.

Enfim, o trabalho reprodutivo
De nossa parte, e seguindo a perspectiva de Marx, que toma o conjunto da sociedade e não um pedaço como sendo “o ponto de vista da classe trabalhadora”, a noção de trabalho reprodutivo está equivocada por dois motivos principais:

  1.   não é trabalho.
  2.   não é reprodutivo.

Vejamos, em primeiro lugar, o fato do trabalho reprodutivo não ser trabalho na função específica que cumpre no interior da forma de sociedade capitalista. Nessa forma de sociedade, o trabalho é o consumo da força de trabalho que pode ser vendida abertamente no mercado enquanto tal. Sem o consumo da força de trabalho não há valor, não há mais-valia, não há acumulação de capital e todo o resto. Ao colocar as coisas desse modo, não se pretende fazer um juízo moral de se isto é bom ou ruim, de quais atividades são de maior ou menor importância, mas de entender como a sociedade funciona. Atividades as mais desprezíveis quanto a sua finalidade são realizadas na forma do consumo da força de trabalho vendida e, portanto, são, para o capital, trabalho. Da mesma forma, atividades as mais nobres e relevantes são realizadas fora dessa relação e, por esse motivo, não são trabalho de uma perspectiva capitalista.

Como vimos, o que Federici denomina trabalho reprodutivo não é vendido no mercado, mas exercido de forma opressiva no âmbito doméstico. Fica claro, portanto, que, para transformar tais atividades em trabalho, Federici precisa criar um conceito de trabalho como sendo mero dispêndio de esforço e energia em uma atividade qualquer. Ao fazê-lo, des-historiciza o conceito de trabalho e não o considera em sua forma capitalista, mas genericamente e a-historicamente. Ora, ocorre que esse passo contradiz frontalmente os objetivos da autora: ela quer mostrar que o trabalho reprodutivo é o motor da sociedade capitalista e uma forma típica desse modo de produção, mas para o fazê-lo precisa conceituar o trabalho de forma a-histórica e genérica. A tal ponto que tal conceito de trabalho, assim desnudado de sua forma histórica específica, poderia ser aplicado para as atividades de qualquer indivíduo em toda e qualquer forma social do passado. Se considerarmos do ponto de vista do capital e do capitalismo, resta constatar que não existe trabalho doméstico, exceto quando se vende sua força de trabalho como trabalhador(a) doméstico.

Mas não é somente isto. O trabalho reprodutivo de Federici também não é reprodutivo. É impressionante que Silvia Federici discorra páginas e mais páginas sobre o fato do trabalho doméstico não ser assalariado. E diz constantemente da ditadura do salariato. Mas ela esquece de comentar que o salário é exatamente a fatia de capital que garante a subsistência da classe trabalhadora. Mais ainda. Diferentemente do trabalho doméstico, esta é a condição necessária que possibilita ao trabalhador sobreviver nesta forma de sociedade. Qualquer família de trabalhadores deixa de existir sem o salário. No capitalismo, esta é a condição necessária de sua subsistência e, não sem razão, “do ponto de vista do trabalhador”, é o elemento fundamental a ser revolucionado, sem o qual não há transformação socialista concebível. Por outro lado, o trabalho doméstico não é condição necessária para reprodução da força de trabalho dos trabalhadores, mas uma condição contingente e, por esse motivo, não teria porque aparecer como uma categoria específica em O Capital de Marx.

Por que motivo, então, Federici denomina tais tarefas de trabalho reprodutivo? Ela utiliza o termo reprodutivo no sentido da reprodução individual do trabalhador, isto é, “o complexo de atividades e relações por meio das quais nossa vida e nosso trabalho são reconstituídos diariamente’’ e não no sentido da reprodução da forma de organização social. Já o termo trabalho, como já analisamos, aparece no sentido genérico e abstrato de dispêndio de energia e cérebro em uma atividade qualquer. Em ambos os casos, ela abstrai da forma social capitalista em que se reveste tais atividades. Atenção! Federici, a todo o momento, procura, com toda razão, indicar que esses elementos anteriormente indicados são produto específico e impactam diretamente na sociedade capitalista. Mas ao fazê-lo, ela, contraditoriamente, abstrai o aspecto social e histórico de seu conceito de trabalho reprodutivo. Isto é assim porque ela precisa retirar fora exatamente o nexo social que une os indivíduos ao conjunto da sociedade: a compra e venda da força de trabalho paga na forma de um salário. Ela faz uma condenação meramente moral ao salário, “a ditadura do salariato”, e não o incorpora objetivamente a suas categorias. Aí se encontra o centro de todas as confusões que em seus livros irão se multiplicar a cada página.

Ora, mas nesse momento o leitor pode nos indagar: ao negar a categoria do trabalho reprodutivo, onde entra então as tarefas domésticas do trabalhador? Significa que elas não possuem nenhuma relevância? Absolutamente não. Na medida que é uma atividade não paga realizada no âmbito doméstico, ela reduz o valor da força de trabalho. Não é responsável pela sua reprodução (por isso não é reprodutivo), mas interfere no seu valor. Não no valor das demais mercadorias, mas unicamente no valor da própria força de trabalho. O valor da força de trabalho, por sua vez, interfere na fatia da riqueza a ser distribuída entre trabalhadores e capitalistas. Quanto maior o valor da força de trabalho, menor a mais-valia (ou lucro) e vice-versa.

Feito isso, o leitor ainda poderia nos perguntar: ora, se as tarefas domésticas reduzem o valor da força de trabalho, ao serem uma atividade gratuita realizada pelas mulheres no âmbito doméstico, não se segue que ele é algo importante ao intervir na fatia de valor que o capitalista acumula na forma de capital?

A resposta é afirmativa. Certamente o trabalho doméstico interfere na magnitude da mais-valia, sendo, portanto, algo de grande relevância. Acontece que em O Capital Marx não está estudando tudo aquilo que é importante. Fosse esse o caso a tarefa dessa obra seria impossível e cada capítulo abriria outras 1000 páginas sobre aspectos relevantes e que interferem na acumulação de capital. A questão é: o trabalho doméstico é uma condição necessária para a acumulação de capital? Evidentemente não.

O trabalhador vende sua força de trabalho, mas é a efetivação desta força que cria valor. O capitalista, enquanto comprador desta mercadoria específica, pode, a princípio, consumi-la ao seu bel-prazer e estender seu consumo para além dos limites necessários ao pagamento da mercadoria que comprou. Isto é, pode estender o uso da força de trabalho para além do necessário ao pagamento do salário e extrair daí um excedente, a mais-valia. Assim, seja qual for o valor da força de trabalho, mais baixo ou mais elevado em função, por exemplo, do trabalho doméstico, o capitalista pode estender a jornada de trabalho para além do necessário ao pagamento dessa força de trabalho e, assim, obter uma mais-valia e dar marcha ao processo de acumulação de capital. Não há nenhum motivo para inserir a categoria de trabalho doméstico em O Capital, já que ela não é condição necessária para sua reprodução. E, de fato, Silvia Federici argumenta a respeito da relevância do trabalho doméstico na sociedade capitalista, sua extensão e abrangência, seu papel especificamente capitalista e seu desenvolvimento histórico. No entanto, em nenhum lugar ela demonstra ser um elemento necessário para a reprodução de capital, nem demonstra seu vínculo direto com o processo de reprodução de capital.

O mesmo problema que analisamos acima propaga, em seguida, em diferentes níveis nas elaborações de Federici. Por exemplo, sua crítica de que Marx não tratou do problema do trabalho doméstico no capítulo da Acumulação Originária. Ora, o que Marx busca nesse célebre capítulo não são todos os processos historicamente específicos que fizeram parte da formação do modo de produção capitalista. Marx não pretende fazer a história do surgimento do capitalismo nesse célebre capítulo. Ele procura os seus pressupostos necessários, conforme a investigação anterior já indicara: a liberação dos trabalhadores de todos os meios de produção, de um lado, e sua acumulação no polo oposto. Este processo que pressupõe a expropriação violenta da massa de trabalhadores de todos os meios de produção. A esses processos analisados por Marx certamente poderíamos elencar outros que também ocorreram duramente o período formativo do capitalismo. Esses processos poderiam povoar dezenas e dezenas de novos livros. Mas Marx não está preocupado com isso nesse momento de sua elaboração. Procura os pressupostos necessários e não aqueles historicamente contingentes. Por isso mesmo, a crítica de Silvia Federici de que Marx não analisou o papel do trabalho doméstico no surgimento do capitalismo não procede, já que ela não demonstra que seria preciso inseri-lo enquanto um momento necessário para a formação do capital.

A relevância do debate
Por que tal debate é importante? Seria uma mera querela conceitual sem qualquer relevância? Não é, definitivamente, o caso. Não é por mero preciosismo teórico que Marx procura em O Capital aquelas relações necessárias no processo de reprodução do modo de produção capitalista. Tais relações necessárias são aquelas que devem ser reconfiguradas se quisermos caminhar apara além do modo de produção capitalista, com as mazelas e opressões que lhe são próprias. Ao deixar de fora a categoria de trabalho reprodutivo de O Capital a conclusão a que chegamos não é que o problema seja menor. A questão é que, se temos por objetivo superar essa forma de sociedade, a questão do trabalho doméstico jamais poderá ser tomada de forma isolada e descolada das demais relações necessárias e estruturais do capital e do capitalismo. Não sem razão, uma das principais palavras de ordem da AIT é a “supressão do trabalho assalariado”.

Observemos que isto não torna a palavra de ordem “supressão do trabalho doméstico” de menor importância. Mas desautoriza, do ponto de vista da classe trabalhadora e da destruição da sociedade capitalista, seu uso isolado como eixo e centro da intervenção, porque isoladamente ela não conduz invariavelmente a necessidade de destruição dessa forma de sociedade. E esta vinculação das tarefas domésticas as determinações da compra e venda da força de trabalho não é uma opção para os marxistas. É o próprio capitalismo que as vincula objetivamente, em função da forma como funciona e se organiza. Mas este aspecto passa ao largo na análise da autora italiana, pois, segundo ela, não é seu desejo fazer essa vinculação.

Pensamos, ao contrário, que independente de nossos desejos, nós temos que levar em conta a realidade tal como ela é, para traçarmos então nossa intervenção. Não é o caso de fazermos uma eleição subjetiva de qual opressão é mais importante: a doméstica ou a assalariada. É o caso de entendermos como tudo isso se articula dentro da forma de sociedade em questão. Nessa análise vemos que o trabalho assalariado é condição necessária desse modo de produção. O trabalho doméstico, por sua vez, destinado de forma opressiva às mulheres, fragmenta a classe trabalhadora: um polo que realiza o trabalho doméstico e outro que se beneficia dele. Daí que seu combate é fundamental para a unidade da classe. Não se trata de uma conclusão moral e utilitária, mas objetiva.

O moralismo está em procurar combater algo porque este algo seria um “mal em si” sem entendermos a base que o possibilita e, assim, as possibilidades reais de destruí-lo. Se isolarmos o trabalho doméstico estaremos nos movendo ainda no interior das determinações contingentes do capital – o que pode abstratamente ser e o que pode abstratamente não ser no interior desse modo de produção – e jamais no campo revolucionário. Nesse sentido, longe de aprimorar, o que Federici realiza é uma ruptura com o marxismo, seu programa, finalidade e meios.

É importante aqui abrirmos um parênteses para aprofundar a questão. Inúmeros outros aspectos interferem na magnitude de valor da força de trabalho. Todos esses aspectos são relevantes, devem ser levados em conta na intervenção política específica das organizações marxistas, mas nem por isso fazem parte das determinações necessárias do capital, das suas condicionantes estruturais. Por exemplo, o desenvolvimento histórico e cultural de um dado povo determina ou não a inserção de certos produtos como necessidades de consumo, causando uma enorme diversidade nacional dos salários, que variam de país para país em conformidade com tais necessidades. Daí não se segue que a revindicação por um certo padrão de consumo e vida da classe trabalhadora (por exemplo, um padrão brasileiro de consumo similar ao europeu) seja, em si, uma luta pela destruição da sociedade capitalista. Da mesma forma, os preconceitos de todos os tipos entre setores da classe de distintas nacionalidades e raças comumente rebaixa o valor da força de trabalho da classe trabalhadora no geral e dos setores oprimidos com maior intensidade. É a mesma situação. Isto faz dessas revindicações específicas uma questão de vida ou morte para uma organização marxista, mas de forma alguma uma revindicação que deve ser tomada de forma isolada, como se fosse em si mesma anti-capitalista, socialista e revolucionária.

Uma síntese das debilidades na análise de Federici
Para concluir, gostaríamos de ser bastante sinceros a respeito das elaborações de Federici a que tivemos acesso. Elas padecem dos seguintes problemas:

  1. Não acompanha internamente os argumentos de Marx que são alvo de sua crítica, mas os arranca fora já na largada como correspondendo a fatia da realidade ligada “ao ponto de vista do capitalista” ou que simplesmente não é seu desejo investigar este ou aquele aspecto. Por exemplo: como o trabalho doméstico poderia interferir no “tempo de trabalho socialmente necessário” das mercadorias? Não há nenhum desenvolvimento nesse sentido.

  2. Ignora pontos centrais que feririam de morte a sua tese: como o papel do salário como condição necessária de reprodução da força de trabalho. Se ela levasse em conta este aspecto, como ficaria sua demonstração de que a força de trabalho é produzida e reproduzida pelo trabalho doméstico? Ela simplesmente desconsidera o papel do salário no modo de produção capitalista e se foca unilateralmente no fato dele servir de base para a opressão doméstica.

  3. Faz críticas a Marx por não ter tratado de vários temas particulares em O Capital, sem problematizar porque eles deveriam ser tratados tendo em vista seus objetivos nessa obra. Marx não procurou escrever uma megalomaníaca obra que trata de tudo que envolve o capitalismo, mas estudar o capitalismo enquanto um todo.

  4. Apela recorrentemente para a extensão quantitativa de um dado aspecto da realidade (como a extensão do trabalho doméstico) sem problematizar a fundo o papel qualitativo que este aspecto cumpre na realidade capitalista. É como se a extensão falasse por si só e eliminasse a necessidade de examinarmos sua dimensão qualitativa.

  5. Recorrentemente, utiliza o artifício de se apropriar de certas noções de Marx para fundamentar suas teses. Mas o faz desistoricizando-as. Por exemplo, reduzindo o papel do trabalho no capitalismo a exploração de um indivíduo sobre o outro, permitindo assim enquadrar o trabalho doméstico nesse conceito tornado abstrato e a-histórico.

  6. Confunde a relevância empírica do tema com seu papel enquanto determinação necessária do modo de produção capitalista, este último o objetivo de Marx em sua obra.

Concluindo, acreditamos que Federici detecta muito honestamente o problema do trabalho doméstico e tem uma vontade sincera de atacá-lo. Mas sua subjetividade impede, na maioria das vezes, um tratamento científico e objetivo da questão. Seu trabalho traz informações empíricas e históricas interessantes, mas estas são contaminadas pela ausência de critérios objetivos claros no desenvolvimento do tema e pela propensão de chegar, custe o que custar, à determinadas conclusões. Não vemos tal trabalho como cientificamente sério e acreditamos que não agrega muita coisa ao tema e problemas que propõem do ponto de vista dos conceitos que reformula e critica.

A grande dificuldade de tratar de sua obra é que a explicitação de sua debilidade conceitual pode fazer parecer que o problema por ela colocado é pouco relevante. Devemos alertar que este não é o caso. O problema que aborda é de grande relevância, mas a forma como ela o faz é frágil teoricamente, sem critérios objetivos claros, com uma coerência artificialmente forjada ao inserir na análise apenas os elementos que lhe interessa tendo em vista seus objetivos. Do ponto de vista de sua crítica aos conceitos descobertos e desenvolvidos por Marx em sua obra principal devemos dizer com todas as letras que seu trabalho não tem absolutamente nada a agregar.


Referências

Federici, Silvia. El patriarcado del salario. Críticas feministas al marxismo. Madrid: Traficantes de sueños. 2018.

Federici, Silvia. Calibán y la bruja. Mujeres, cuerpo y acumulación originaria. Madrid: Traficantes de sueños. 2004.

Notas

1 A primeira elaboração desse conceito, na verdade, pertence ao trabalho conjunto de Mariarosa della Costa e Selma James: “Women and the Subversion of the Community” (As Mulheres e a Subversão da Comunidade): https://libcom.org/files/Dalla%20Costa%20and%20James%20-%20Women%20and%20the%20Subversion%20of%20the%20Community.pdf

2 Cabe ressaltar que um manuscrito de Marx publicado posteriormente com o título de “Salário, preço e lucro” é um discurso pronunciado na AIT justamente para refutar a ideia de que a magnitude dos salários interfere no valor das mercadorias.

Gustavo Machado

Editor do blog Teoria e Revolução.

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