Revolução e memória coletiva: destruição, conservação e criação

O assassinato de George Floyd, estrangulado por um policial branco em Minneapolis, sob a suspeita de ter usado uma nota falsa de vinte dólares numa loja de conveniência, fez explodir levantes populares contra a violência policial e todas as formas de racismo aos negros, nos quatro cantos dos Estados Unidos da América (EUA), em meio à maior pandemia do século XXI.

Como parte disto, desencadearam-se ações contra monumentos associados ao racismo, como as estátuas do extinto Estado Confederado, um agrupamento político de estados do Sul escravagista nos Estados Unidos da América (EUA), no século XIX.

Segundo levantamento do Southern Poverty Law Center (SLPC)1, existem nos Estados Unidos da América 1741 símbolos públicos da Confederação. Dentre este impressionante número, existem 771 estátuas confederadas com uma disposição geográfica bastante definida: a esmagadora maioria está erigida na região Sul dos EUA, em estados como Virgínia, Texas, Geórgia, Alabama e Mississippi.

No dia 10 de junho manifestantes derrubaram a estátua de Jefferson Davis, em Richmond, no estado da Virgínia2. Davis foi líder do Exército Confederado que defendia a manutenção da escravidão negra.

No dia 19 de junho (sexta-feira) foi retirada a estátua de Cristóvão Colombo, em frente à universidade comunitária estadunidense, que leva o seu nome, na cidade de Colombo, estado de Ohio3. Esta retirada ocorre no Juneteenth, data da Proclamação de Emancipação, em 19 de julho de 1865.

Em São Francisco, Califórnia, outra estátua de Cristóvão Colombo foi alvo da população, que foi às ruas protestar contra o racismo e tingiu de vermelho a estátua do colonizador espanhol responsável pelo extermínio de milhares de indígenas nas Américas. Após os protestos, a prefeitura decidiu retirar a estátua de Colombo do espaço público que ocupava4.

Na Europa, os atos contra os monumentos históricos também ocorreram. Em Bristol, no Reino Unido, os manifestantes chegaram a derrubar a estátua de Edward Colston e jogaram-na num rio. Colston foi um traficante de escravos que foi membro do Parlamento Britânico e responsável pela morte de mais de 19 mil negros nas Américas e Caribes. A estátua de Colston foi retirada da água e será levada para um museu, segundo a Prefeitura de Bristol5.

Na Bélgica, uma estátua de Leopoldo II foi tingida de vermelho, um busto “amordaçado” com uma faixa com os dizeres “não consigo respirar” – em alusão à frase proferida por George Floyd, estrangulado pelo policial em Minneapolis – e outra estátua incendiada. Leopoldo II, ex monarca da Bélgica, foi responsável pela morte de milhões de africanos no século XIX, através da partilha da África e seu domínio sobre o Congo.

Em nossa opinião, esses atos contra os monumentos ligados à memória racista são bastante progressivos, e revelam um pequeno acerto de contas com a memória das classes dominantes.

Como Marx e Engels afirmavam, a ideologia dominante em cada tempo é a ideologia da classe dominante: “As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, isto é, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios da produção material dispõe também dos meios da produção espiritual […]” (2007, p. 47).

Em consequência, a ideologia dominante inscrita nos monumentos de nosso tempo são, em sua maioria, patrimônio ideológico da burguesia.

A palavra monumento, como nos lembra a historiadora Françoise Choay, vem “do latim monumentum, que por sua vez deriva de monere (‘advertir’, ‘lembrar’), aquilo que traz à lembrança alguma coisa” (2006, p. 17-18).

A própria localização geográfica destes monumentos e dos demais chamados patrimônios de “pedra e cal” não é acidental. O morro do pão de açúcar estar no lugar onde está é um fato geológico, um dado da natureza6. Mas a estátua da Princesa Isabel ter sido erigida e posta em Copacabana, não é um dado da natureza.

Portanto, os monumentos não se erguem sozinhos, os patrimônios não são tombados7 sozinhos e os acervos museológicos não são musealizados8 sozinhos. Tudo isto ocorre por escolhas políticas que, em última instância, são determinadas por quem detém o poder político e econômico nesta sociedade capitalista.

E a burguesia sabe muito bem disso. Primeiro porque, como o historiador Hertz Dias costuma dizer, ela tem consciência histórica e, segundo, porque a própria burguesia fez isso em sua luta revolucionária contra a monarquia e a nobreza.

As revoluções burguesas e o patrimônio
Os museus modernos são criações das revoluções burguesas. Isto é, surgiram no momento em que a burguesia era uma classe que cumpria um papel revolucionário na história, destruindo as velhas relações feudais e transformando todo o mundo.

Tomemos o caso da França. A decadência da monarquia e da nobreza francesa pode ser medida, também, na incapacidade desta classe social concluir a criação de um grande museu na França. O projeto se arrastava por décadas na Galeria do Louvre. Mas bastaram apenas três anos revolucionários para a criação do Museu do Louvre.

Para o historiador Andrew McClellan, essa virada inicia-se com o colapso final da monarquia Bourbon, em agosto de 1792, quando o Palácio Tuileries foi invadido e Luis XVI foi feito prisioneiro. Até então, como bem destacara, o Louvre permanecia um palácio real e o museu, propriamente dito, era um projeto sob supervisão dos arquitetos do rei.

Com a queda da monarquia, a coleção real foi declarada propriedade nacional e a Assembleia Nacional confiscou-a. Os bens da monarquia tornaram-se propriedade da nação e passaram a integrar o primeiro museu público da França.

De acordo com McClellan, comissões compostas por artistas e acadêmicos foram estabelecidas em Paris – como a Comissão dos Monumentos (1790) e a Comissão Temporária das Artes (1793) – para determinar o que deveria ser preservado, o que deveria ser vendido, reutilizado ou destruído. Em decreto de 11 de agosto de 1792, a Assembleia Nacional expressava sua compreensão de que o patrimônio não só pertencia à nação, mas que estaria à serviço de um novo regime:

A Assembleia Nacional, considerando que é importante reunir no Museu Francês as pinturas e outros monumentos de artes plásticas espalhadas em vários lugares, decreta com caráter de urgência o seguinte: Comissão dos monumentos transportará sem atrasos, no depósito do Louvre, mesas e outros monumentos de valor inestimável relacionados às artes plásticas, espalhados em casas conhecidas como edifícios reais e outros edifícios nacionais (MADIVAL; LAURENT et al, 2016, p. 02, tradução nossa9).

Em 16 de setembro de 1792, a Assembleia Nacional decretava medidas para evitar a dispersão das obras de arte em território francês e indicava o Louvre como seu depositário: “A Assembléia Nacional decreta, em regime de urgência, que é importante preservar nas artes plásticas e na educação pública, as obras-primas espalhadas pela superfície do império” (TUETEY; GUIFFREY, 1909, p. 02-03, tradução nossa).

Mais do que receptor de objetos raros, o Museu do Louvre se tornaria em um monumento nacional para afirmar, conforme Armand Kersaint em seu Discurso sobre os monumentos públicos, a vontade da nação e a superioridade do novo regime sobre o velho (apud MCCLELLAN, 1999, p. 93).

Novos símbolos para o culto do público deram lugar aos velhos, e as manifestações do passado ou eram destruídas, ou apropriadas e ressignificadas. Como instituição que abrigava as obras de arte, o museu familiarizou o povo francês com a história, os símbolos e mártires da revolução10.

O Museu do Louvre nascia como um Museu eminentemente revolucionário. Conforme McClellan, semanas antes de 10 de agosto, o Louvre receberia toda a sorte de obras de arte capazes de revelar a extensão da riqueza da nação francesa.

A Revolução Francesa elevou a preservação e a criação de uma memória coletiva através dos monumentos e das obras de artes a um nível jamais visto até então. Mas a mesma revolução que criou uma Comissão de Monumentos, e criou o Louvre, também pôs abaixo monumentos, seja pelas ações das massas, seja através da ação do Estado.

É importante lembrar que a deflagração da revolução burguesa mais importante da história começou justamente com a destruição de um grandioso empreendimento arquitetônico de quatro séculos: a Bastilha.

Criada originalmente para ser um portal de entrada para o bairro de Saint-Antoine, a Bastilha tornou-se, a partir do século XVII, numa prisão para presos políticos do regime absolutista. Como nos fala Eric Hobsbawm, as massas tomaram a Bastilha,

uma prisão estatal que simbolizava a autoridade real e onde os revolucionários esperavam encontrar armas. Em tempos de revolução, nada é mais poderoso do que a queda de símbolos. A queda da Bastilha, que fez do 14 de julho a festa nacional francesa, ratificou a queda do despotismo e foi saudada em todo o mundo como o marco inicial de libertação (HOBSBAWM, 1996, p. 24-25).

Segundo Leon Trotsky, se um símbolo é uma imagem concentrada, as revoluções seriam as maiores criadoras de símbolos, justamente porque apresentam todos os fenômenos e todas as relações sob um aspecto concentrado (2017a, p. 179). Isto pode ser confirmado no caso francês, que criou e recriou uma infinidade de símbolos.

A Assembleia Nacional Legislativa, criadora de inúmeros decretos visando à proteção de bens móveis e imóveis com valor patrimonial, de comissões e instituições que visavam à preservação patrimonial também aprovou a venda de bens móveis para gerar divisas para a nação e até mesmo o derretimento de esculturas de bronzes pertencentes à nobreza para transformá-las em canhões para a guerra total à contrarrevolução internacional.

Em 14 de agosto de 1792, a Assembleia Nacional Legislativa da França decretava:

Art. 1º. Todas as estátuas, baixos-relevos, inscrições e outros monumentos em bronze ou em qualquer outro material erigido em todos os locais públicos, templos, jardins, parques e dependências, casas nacionais, mesmo naquelas reservadas para o gozo do rei, serão removidos sob a diligência dos representantes dos municípios, que garantirão sua conservação provisória.

Art. 2º. Os representantes do município de Paris converterão, sem demora, em bocas de fogo [termo para armas de artilharia que disparam projeteis por tubos, como canhões, morteiros e obuses] os objetos mencionados no artigo 1, existentes nos muros de Paris, sob a supervisão do Ministro do Interior, de dois membros da comissão de armas e dois membros da comissão de monumentos (1896, p. 116, tradução nossa).

Portanto, o debate sobre o que fazer com os patrimônios materiais é, em última instância, um debate político.

Ações de vanguarda vs Ações de massas
A contestação aos monumentos e patrimônios que celebram a memória da classe dominante não surgiu agora. Mesmo em situações de relativa estabilidade social há ações contra bustos de ditadores, placas de ruas ou monumentos em praças públicas em memória da classe dominante.

Mas, o que assistimos hoje é uma contestação qualitativa e quantitativamente diferente. O que está acontecendo nos EUA e em várias partes do mundo não são ações de pequenos grupos que – independente da justeza de suas intenções – agem isoladamente. O que assistimos são ações de massas de explorados e oprimidos contra monumentos erigidos em louvor à memória da classe dominante. E isto é uma constante em situações revolucionárias, como vemos na descrição de Trotsky sobre outubro de 1917:

A velha Rússia desfaz-se em fumaça. A imprensa liberal recolhe as lamentações, os gemidos, a respeito da destruição dos jardins à inglesa, dos quadros pintados na época da servidão, das bibliotecas patrimoniais, dos partenons de Tambov, dos cavalos de corrida, das velhas gravuras, dos touros de raça. Os historiadores burgueses tentam lançar sobre os bolcheviques a responsabilidade de “vandalismo” dos camponeses ao exercerem represálias contra a “cultura” dos nobres. Na realidade o mujique russo acabava uma obra empreendida muitos séculos antes da aparição dos bolcheviques no mundo. Realizava ele seu papel histórico de progresso com os únicos meios que estavam a sua disposição: pela barbárie revolucionária ele extirpava a barbárie medieval. Aliás, nem ele próprio, nem seus antepassados, nem seus avós, conheceram, jamais, a clemência ou a indulgência (2017b, p. 53).

Em segundo lugar, chamar essas ações – ou o questionamento que elas suscitam sobre o patrimônio de cidades, estados e países – de “revisionismo histórico” é completamente descabido. Quem faz isso usa um velho recurso dos ideólogos da burguesia em defesa da ordem capitalista. Não por acaso, o redator da Folha que desqualifica as ações das massas contra os símbolos racistas de “revisionismo histórico” é o mesmo que, nas linhas seguintes, chama Cristóvão Colombo, responsável pelo extermínio de milhares indígenas no continente americano, de o “pioneiro da conexão entre Europa e América”11.

Em terceiro lugar, aqueles que advogam em defesa destes monumentos em nome da História, esquecem que as ações das massas exploradas e oprimidas contra monumentos da classe dominante também são atos históricos. É o que avalia a historiadora Maria Helena Machado:

Derrubar qualquer símbolo da escravidão de africanos, indígenas ou de qualquer outro grupo, não é, de forma alguma, destruir a história. Esta continuará a ser narrada a partir das pesquisas sérias que centenas de estudiosos especializados realizam dia após dia. Derrubar coletivamente a estátua é também um ato que se inscreve na história, sobretudo pelo seu caráter público e televisionado12.

É o que também fala o historiador Michel Ehrlich:

Uma vez realizada a remoção ou recaracterização da estátua em um protesto, este ato se tornou também histórico. Pretender restaurar a estátua para evitar um “apagamento da história” apaga justamente o fato, igualmente histórico (mas provavelmente muito mais digno de ser rememorado) do protesto envolvendo a mesma estátua. Recolocar a cabeça de Cristóvão Colombo nas estátuas “decapitadas” é apagar o ato de sua decapitação simbólica. Em 1968 (e novamente em 2014) um busto do reitor da UFPR Flávio Suplicy de Lacerda foi retirado e arrastado pela rua XV de Novembro por estudantes em protesto contra a colaboração desse reitor com a ditadura. A escolha por recolocar o busto tal como era antes significa optar por “preservar” a memória “positiva” do reitor e apagar e relegar ao esquecimento (ou a uma discreta placa) o protesto dos estudantes. Construir memórias implica, necessariamente, em uma articulação entre lembrar e esquecer.13

A Restauração, como há de se supor até aqui, não é uma técnica isenta de posição política. Recolocar, por exemplo, a cabeça da estátua de Cristóvão Colombo decapitada é uma escolha política. Afinal, em termos museológicos, qualquer dano, marca ou intervenção numa obra – causada pelo homem, pela ação do tempo ou por outros agentes – deve ser registrada na documentação desta obra, que pode ou não ser restaurada.

Portanto, decidir pela restauração pura e simples de artefatos danificados por ações das massas, como este exemplo evoca, serve à conservação simbólica de uma ordem material de exploração e opressão da classe trabalhadora, de negros, indígenas, mulheres e LGBTs.

As ilusões acerca dos museus sob o capitalismo
Costuma-se lembrar que o museu é uma instituição que acolhe, musealiza e conserva objetos, mas costumeiramente esquece-se que o museu tem políticas de descarte de seus objetos. Por isso, a ideia de que tudo deve ser preservado com vistas à lembrança também é uma ilusão quando falamos em instituições museológicas.

Além disso, é preciso romper com a ideia de que os museus são instituições que “pairam” sobre a sociedade e que, por isso, conseguiriam preservar, selecionar e expor os acervos ligados à memória da classe dominante de forma crítica.

Vejam: se é verdade que parte dos monumentos e patrimônios móveis de exaltação ao racismo, à escravidão e ao colonialismo devem ser preservados e encaminhados a museus, não se pode acreditar que os objetos serão “ressignificados” – como num passe de mágica – simplesmente ao adentrarem os museus, como muitos fazem crer.

Afinal, os museus não são instituições neutras. E isso pode ser constatado a começar pela sua própria instalação. A maior parte dos museus estão instalados em imóveis que eram residências. Mas que residências tornaram-se museus? Os imóveis “coloniais” musealizados foram as senzalas, ou as Casas Grandes? Foram os mucambos, ou os casarões e palácios? Nos centros urbanos do século XX, foram casas de operários ou mansões da burguesia que se tornaram museus? E com quais finalidades estes imóveis tornaram-se museus?

Por outro lado, a burguesia atribuiu aos museus um atributo de veracidade que pouquíssimas instituições sociais na história já possuiu. Se algo está no museu, supõe-se que seja verdadeiro, autêntico, fidedigno etc.

Tomemos outro exemplo. A professora que, através dum livro didático, ensina a seus alunos que a abolição da escravidão foi uma obra gratuita da Princesa Isabel, leva essa sua turma de alunos a um Museu Histórico para reforçar essa narrativa com a força da “prova” dos documentos, pinturas, bustos e objetos musealizados da família imperial. Os museus sob o capitalismo funcionam como o fecho de um longo encadeamento ideológico que muitas vezes começa nos livros didáticos.

Por fim, as técnicas museográficas são a “gramática” de uma construção narrativa que, ao invés de usar apenas palavras, usa objetos, luz, suportes e espaço.

Vejamos a pintura Estudo para a Libertação dos Escravos, de Pedro Américo, exposta por anos na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Trata-se de uma pintura de grandes proporções que, de forma resumida, projeta na tela o discurso da história oficial: a libertação dos negros escravizados deu-se por uma obra magnânima do império. Os negros ajoelhados, agradecem a uma figura divina da Liberdade que ergue os braços, sob o olhar atento de uma figura entronizada, ao fundo, com vestimentas que aludem às cores da nação brasileira (PINCERATI, 2016). A escravidão é retratada como um demônio negro exorcizado por uma ação de ares divinos. O cenário todo parece um idílio divino.

Figura 1: Estudo para a Libertação dos Escravos, 1889, Pedro Américo. Óleo sobre tela, 138,5 cm x 199 cm.

 

Evidentemente, é possível utilizar esta pintura, num museu, como um documento para contrapormos uma visão crítica sob uma perspectiva de classe e raça da abolição da escravidão. Porém, a sua exposição ao centro da sala expositiva na Pinacoteca, repleta de quadros da família real e sob o “olhar atento” do busto de Dom Pedro II, induzem o espectador à compreensão de que a abolição da escravidão se deu, realmente, por uma ação piedosa da família imperial.

Figura 2: Parte da Sala Expositiva, Pinacoteca, 2014. Arquivo Pessoal

 

Revisionismo ou Reparação: o que fazer?
Mas se estas ações contra monumentos que evocam a memória racista da classe dominante são ações progressivas, é preciso reconhecer que elas apenas “arranham” a superfície do problema.

Essa luta “simbólica” precisa se inscrever numa luta política mais ampla por reparações históricas aos negros.

Embora muito diferentes, EUA e Brasil têm muitas semelhanças. Lá, como aqui, houve abolição da escravidão sem nenhuma política de reparações ao povo negro. Durante a Guerra Civil estadunidense, o Norte havia prometido implementar uma política de Reconstrução do Sul e que concederia aos negros livres 40 acres de terra (cerca de 16 hectares) e 1 mula. Mas isso jamais aconteceu.

No Brasil, como já foi falado em artigos anteriores14, a abolição da escravidão foi antecedida por medidas que visavam a restringir o acesso dos negros à terra e, com as políticas de imigração europeia e com as ideologias racistas, impediu-se o acesso dos negros ao mercado de trabalho assalariado, o que explica em grande medida a situação dos negros hoje.

Portanto, a luta por reparações exige a luta por reforma agrária e urbana. Exige a suspensão da asquerosa dívida pública dos países pobres do continente Africano, da Ásia e da América Latina e Caribe com os credores imperialistas. Trata-se de uma dívida contraída para enriquecer os ricos e poderosos às custas da riqueza produzida pelo trabalho escravo e pela exploração dos trabalhadores assalariados.

Como explica Hertz Dias, em recente texto,

Aquilo que chamamos de Reparações históricas no Brasil nada mais são do que as demandas que ficaram represadas pela forma como se deu a abolição, além de tantas outras demandas que foram aparecendo à medida que o capitalismo brasileiro foi se desenvolvendo completamente dependente das forças imperialistas.

Essa política tem duas dimensões: a jurídica e a econômica. A jurídica é aquela de cunho mais superestrutural voltado para luta por igualdade de direitos, acesso à educação, respeito à diversidade, tolerância religiosa, valorização cultural, histórica, entre outras. Já as demandas econômicas dizem respeito às lutas mais estruturais como o direito à terra, ao trabalho, à moradia, à saúde, renda e até a defesa da suspensão da dívida externa ou pública (DIAS, 2020).

Hertz explica, ainda, que por serem demandas democráticas e poli-classistas, as reparações históricas interessam não só aos negros da classe trabalhadora e pobres, mas também interessam às frações da comunidade negra das classes médias e da minúscula burguesia negra. Porém, alerta que

essas frações não têm condições de defender a aplicação desse programa em sua plenitude. Sempre que possível trairão essas lutas tão logo seus interesses de classes estejam ameaçados. Não falamos apenas dos negros burgueses, que representam uma minúscula fração da burguesia nacional, mas também das organizações associadas ao grande capital e aos organismos imperialistas como aqueles que financiaram a Conferência de Durban. Esse mesmo critério se aplica aos partidos reformistas e de conciliação de classes como PSOL, PT e PCdoB que comemoram a aprovação do humilhante auxílio emergencial de R$ 600,00 como se fosse a redenção da periferia. Jamais conduzirão qualquer luta para além das fronteiras da democracia burguesa (DIAS, 2020).

Uma luta simbólica antirracista precisa ter um caráter internacionalista, com uma exigência de restituição dos bens históricos, artísticos e culturais reivindicados pelos povos africanos e latino-americanos e que compõem o acervo dos museus dos países imperialistas.

No Brasil, é preciso exigir imediatamente a criação de um Museu federal destinado a recolher, organizar e expor os bens materiais e imateriais da cultura afro-brasileira, com abertura de concursos públicos para os quadros técnicos, administrativos e de serviços, com elaboração de um Plano Museológico com a participação das organizações dos trabalhadores e do movimento negro.

Parafraseando Dias, esta exigência não é para ser aplicada pelo governo Bolsonaro e pelo seu capitão do mato Sérgio Camargo, mas contra eles, pois se trata de uma exigência antirracista e democrática e este governo é declaradamente racista e autoritário.

Aqui, 67% dos museus são públicos e, apesar disto, 91% da população nunca foi ou raramente vai a um museu ou centro cultural, segundo dados do IPEA15. Por isso, uma luta simbólica antirracista que vá às últimas consequências simbólicas precisa ir além da derrubada de estátuas que celebram a memória das classes dominantes, ou retirá-las (danificadas ou não) para destiná-las aos museus. É preciso controlar os museus.

A burguesia reuniu nos museus, jardins botânicos, arquivos e bibliotecas uma infinidade de primorosas obras de artes e importantes testemunhos históricos, naturais e científicos da humanidade que precisam ser preservados e abertos à classe trabalhadora. Porém, como sintoma de sua tendência a levar a humanidade à barbárie e à destruição, a burguesia já não é mais capaz de conservar todo este rico patrimônio. Foi o que vimos com o incêndio do Museu Nacional, em 2018 e, mais recentemente, com o incêndio do Museu de História Natural da UFMG.

Por isso, pôr os museus e centros culturais a serviço dos explorados e oprimidos exige uma luta pelo controle do Estado. Exige uma luta pelo poder para controlar não só os museus, mas também, as bibliotecas, arquivos, cinemas etc e pô-los a serviço e usufruto da classe trabalhadora e do povo negro e pobre.

Exige uma revolução socialista apoiada em conselhos populares compostos por trabalhadores e pelo povo negro e pobre, pois, como explica Hertz Dias, a política por reparações aos negros não pode se dar plenamente por dentro da democracia burguesa, herdeira única de toda a riqueza produzida pela escravidão negra.

Então só pode ser através de um governo próprio do proletariado, com seu próprio Estado e com sua própria democracia ancorada em sua auto-organização. O que implica dizer que essa plataforma reparatória deve ser combinada, e não diluída, ao programa mais geral para libertação da classe trabalhadora, o da revolução socialista (DIAS, 2020).

Lembremos que foi a tomada do poder pelos revolucionários na Rússia, e a criação de um Estado Operário, que deu as condições necessárias para a criação, no início da década de 1920, de uma série de museus com os artefatos confiscados dos czares e universalizando o seu acesso numa amplitude até então inédita, como narrara Anatóli Lunatchárski, Comissário do Povo para a Educação:

No que se refere aos museus, eles se encontram na mais exemplar ordem e funcionam sob a chefia dos melhores museólogos; eles foram extremamente enriquecidos graças à transferência para lá de todo tipo de obras de arte e monumentos históricos oriundos de palacetes rurais e mansões senhoriais.

Ao mesmo tempo que os melhores quadros do antigo Hermitage foram removidos para Moscou por vontade de Kérenski e ainda estão fechados em caixas à espera do dia em que estejamos absolutamente tranquilos com a situação de Petersburgo, as salas do Hermitage outra vez estão se enchendo de magníficas obras de arte, em parte compradas, em parte simplesmente trazidas de tesouros particulares até hoje não disponíveis para o público. E que maravilhas estão abertas atualmente para a contemplação das massas populares e dos estudantes nos palácios de Iussúpov, Stróganov e outros! (2017, p. 4034)


Bibliografia:

ARCHIVES Parlamentaires de 1787 a 1860: Recueil Complet des Débats Législatifs & Politiques des Chambres Françaises. Tomo XLVIII. Paris: Paul Dupont, 1896. Disponível em: <https://sul-philologic.stanford.edu/philologic/archparl/>. Acesso em: 23 jun. 2020.

CHOAY, Françoise. A Alegoria do Patrimônio. São Paulo: Estação Liberdade; UNESP, 2006.

DIAS, Hertz. Do 13 de maio de 1888 à Conferência de Durban de 2001: O que acontece quando nossas lutas escapam do nosso controle. PSTU, São Paulo, 13 mai. 2020. Disponível em: <https://www.pstu.org.br/do-13-de-maio-de-1888-a-conferencia-de-durban-de-2001-o-que-acontece-quando-nossas-lutas-escapam-do-nosso-controle/>. Acesso em: 23 jun. 2020.

LUNATCHÁRSKI, Anatóli. O poder soviético e os monumentos do passado. In: GOMIDE, Bruno Barretto (Org). Escritos de Outubro: os intelectuais e a Revolução Russa (1917-1924). São Paulo: Boitempo, 2017. Versão ebook.

HOBSBAWM, Eric. A Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.

IBRAM. Museus em números volume 1. Brasília: IBRAM, 2011.

IPEA. Sistema de Indicadores de Percepção Social – Cultura. IPEA: 2010. Disponível em: <<http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/SIPS/101117_sips_cultura.pdf>>. Acesso em: 18 ago 2015.

MARX, Karl; ENGELS, Friederich. A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stiner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas 1845-1846. São Paulo: Boitempo, 2007.

MCCLELLAN, Andrew. Inventing the Louvre: Art, Politics, and the Origins of the Modern Museum in Eighteenth-Century Paris. Berkeley; Los Angeles; London: UCLA, 1999.

PINCERATI, Walker Douglas. Negro é o inferno! Um ensaio sobre as cores dos homens, dos demônios e dos deuses. Working Papers em Linguística, Florianópolis, v. 17, n. 2, p. 46-71, out. 2016. ISSN 1984-8420. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/workingpapers/article/view/1984-8420.2016v17n2p46>. Acesso em: 25 jun. 2020.

TROTSKY, Leon. A história da Revolução Russa. Volume II. Brasília: Senado Federal; Conselho Editorial, 2017a.

TROTSKY, Leon. A história da Revolução Russa. Volume III. Brasília: Senado Federal; Conselho Editorial, 2017b.

TUETEY, Alexandre; GUIFFREY, Jean. La Commission du Museum et la creation du Musee du Louver (1792-1793). Paris: Libraire de la Société de L’Historie de L’Art Français, 1909.


6Já o fato de, dentre tantos morros na cidade do Rio de Janeiro, justo ele ter se tornado um patrimônio cultural só pode ser explicado à luz da política e da economia.

7“Tombar” é uma expressão designada para tornar algo um patrimônio material ou imaterial. A palavra é uma referência à Torre do Tombo, Arquivo Público de Portugal.

8“Musealização” é o processo de atribuição de valor museológico a um objeto através da seleção, documentação e comunicação. Um objeto musealizado “perde” seu valor de uso e seu caráter unitário e “ganha” um valor simbólico, mais geral. Por exemplo, uma espingarda no Museu Histórico Nacional foi destituída do seu valor de uso, ninguém a utiliza para atirar. Em consequência, esta espingarda passa a representar mais do que apenas um determinado modelo específico de arma, podendo representar o conjunto das armas de fogo, representar uma época, ou uma classe social, de acordo com a intencionalidade daqueles que a expõem.

9Agradeço ao camarada Jóe pelas correções e sugestões na tradução do francês.

10Ver McClellan (1999, p. 102) e Choay (2006).

14Ver o Especial feito pela Secretaria Nacional de Negras e Negros do PSTU sobre os 132 anos da Abolição da Escravidão sem Reparações: https://www.pstu.org.br/13-de-maio-132-anos-de-uma-abolicao-sem-reparacoes/. Acesso em 23 jun. 2020.

15Média obtida das respostas dos entrevistados das cinco regiões brasileiras que declararam raramente ou nunca terem ido a museus/centros culturais: 94,0% (SUL), 92,9% (Sudeste), 87,0% (Centro-Oeste), 92,8% (Nordeste) e 88,2% (Norte) (IPEA, 2010).

Wagner Damasceno

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