Um fascismo raro

Traduzimos um estrato do texto de Nahuel Moreno denominado “Lora renega o trotskismo”. Tal texto é um questionamento de Moreno à orientação do partido trotskista Boliviano, POR, dirigido por Félix Lora, quando estes, sob o pretexto de lutar contra o governo “fascista” do General Hugo Banzer, adentraram a uma frente denominada FRA (Frente Revolucionária anti-imperialista) composta com setores da burguesia nacional boliviana.


 

Lora, como outros integrantes da FRA, definem o atual governo boliviano como fascista (P.143 do livro Bolivia: de la Asamblea Popular al golpe fascista). Uma página antes está escrito o seguinte: “A situação política boliviana se modificou rapidamente, em em curto prazo pode passar da resistência passiva para a ativa, isto ocorrerá na medida que se generalize a rejeição ao governo e, portanto, adquira expressão política. Nesse caminho merece citar a derrota do oficialismo nas eleições sindicais que ocorreu nos centros mineiros”. O Ministro do Trabalho se mudou para Siglo XX [pequena cidade boliviana] no contexto de uma inconfundível campanha eleitoral, e, em resposta a essa interferência abusiva, os operários votaram fortemente contra os homens viciados no regime e deram a vitória à esquerda.”

Não se luta melhor contra um governo reacionário definindo-o sempre da mesma forma: fascista. A palavra é forte, fere nossos ouvidos, mas não muda a realidade. A melhor forma de combater qualquer governo burguês é fazer uma clara e justa definição de classe, bem como de sua provável dinâmica. Os stalinistas, durante o terceiro período, praticavam esse trágico jogo de chamar todos os governos burgueses de fascistas, sem distinguir suas distintas características. Trotsky dedicou muitas páginas para combater esse infantilismo teórico, o que me exime de tratar demoradamente o tema.

Existem governos reacionários, muito reacionários, que não são fascistas. Existem outros que são semifascistas. Os companheiros brasileiros dão um bom exemplo de responsabilidade teórica ao negar-se a definir como fascistas os governos de Garrastazú Medici e os anteriores de Castello Branco e Costa e Silva. Eles fazem esforços árduos para precisar as distintas relações de classe que lhes deram origem e explicar sua dinâmica. Em geral, se mostraram inclinados a considerá-los como distintas variantes de governos bonapartistas, ultrarreacionários, sem ser fascistas. Tudo isso, mesmo tendo passado por tortura e prisão em diferentes oportunidades. Minha opinião pessoal já é conhecida: que alguns desses governos tiveram características semi-fascistas. Esta diferença de apreciação não invalida o acordo metodológico: os governos burgueses devem ser estudados e definidos como marxistas e não de forma agitativa ou sentimental, substituindo as definições sérias por chavões.

Na Bolívia, temos o mesmo problema: ou fazemos uma definição trotskista séria sobre o caráter do governo ou o insultamos? Temos grandes dúvidas do que seria um “governo fascista” que permite a conquista de nos principais sindicatos do país. Se é fascista, é muito raro e de um novo tipo, porque todo governo fascista se caracteriza precisamente por esmagar – com métodos de guerra civil e se apoiando na mobilização da classe média desesperada e do lumpemproletáriado – a classe trabalhadora com suas organizações sindicais e partidos. Esta é a clássica definição trotskista do fascismo, para distingui-la de um governo ultrarreacionário que, embora exista, não é fascista.

Na Bolívia, se nos atermos ao que diz Lora, o governo não destruiu os sindicatos. Pelo contrário, deixa-lhes uma certa margem de liberdade e seus métodos não são de “guerra civil“, nem se verifica a mobilização da pequena burguesia e de lúmpens desesperados contra eles, mas ao contrário, procura, em uma “campanha eleitoral“, triunfar nas eleições sindicais, aceitando perdê-la.

Nossa opinião é que o governo Banzer é um governo ultrarreacionário, baseado em uma sólida frente burguesa, que faz com que os dois principais setores da burguesia boliviana participem do poder: a mineira do Altiplano e a de Santa Cruz (relacionada ao gado, açúcar, algodão, em plena expansão). Este governo é qualitativamente diferente do de Barrientos1, que teve ou passou a ter características semi-fascistas, se apoiando em setores camponeses ou pequenos burgueses contra o movimento operário. Essas diferentes caracterizações explicariam as profundas diferenças entre Banzer e Selich2, verdadeiro continuador do barrientismo; diferenças que são inexplicáveis se definimos Banzer e Selich como diretamente fascistas.

Podemos discordar sobre o caráter do atual governo boliviano, sobre o peso que a tem sobre a pequena burguesia desesperada; mas em uma questão estou certo de que vários concordarão: que o atual governo boliviano, que permite as eleições nos principais centros de mineração, não é tão reacionário quanto o governo brasileiro, que vocês não classificam como fascista. Este é o único ponto que gostaria de assinalar.


1General René Barrientos Antuño, presidente da Bolívia no final dos anos 60. Morreu carbonizado num acidente de helicóptero em abril de 1969. As circunstâncias do ocorrido nunca fora completamente esclarecidas.

2Major Andrés Selich, chefe dos rangers que capturaram Che: morreu sob tortura em 1973, justamente sob a ditadura do general boliviano Carlos Hugo Bánzer.

Originalmente publicado na Revista de América nº 8/9, Maio-Agosto de 1972. Extraído do Arquivo Leon Trotsky

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