A Revolução Cultural: uma revolução política abortada

O ano 1968, do qual este ano celebramos o quinquagésimo aniversário, foi um ano de grandes mudanças em nível global. Massas de jovens, estudantes, trabalhadores surgiram no palco da luta política. As classes dominantes de todos os países foram questionadas. Na França, no mês de maio, milhões de operários em greve ocuparam as ruas do país, chegando a um passo da tomada do poder.

Nos anos anteriores, houve vários sinais de que a situação política global estava chegando a um ponto de ruptura.

A China foi um país onde, em meados dos anos 60, houve uma enorme explosão revolucionária, que assumiu as características de uma verdadeira revolução política contra a dominação burocrática do Partido Comunista, claramente de origem stalinista. A burocracia, à frente do Pcc (Partido Comunista Chinês), privilegiava a defesa de seus próprios interesses materiais em detrimento do desenvolvimento da revolução, seja em nível nacional como internacional.

Como todos os partidos comunistas de orientação stalinista, em um primeira fase ficou completamente subordinado aos interesses da burocracia do Kremlin. Uma vez conquistado o poder, as necessidades burocráticas nacionais do novo Estado operário entraram em conflito com as de Moscou. (*)

Para tentar entender as razões desse fenômeno, devemos analisar brevemente o curso anterior dos eventos e a estrutura nacional e internacional em que ocorreram.

A China: um Estado operário deformado
Ao contrário da Rússia em 1917, na China, a revolução deu origem a um Estado operário deformado (assim como eram os Estados operários nascidos após a Segunda Guerra Mundial na Europa Oriental). O poder nunca esteve nas mãos de organismos de classe comparáveis ​​aos soviéticos, nem poderia o Pcc ser comparado de forma alguma ao Partido Bolchevique de Lênin e Trotsky.

Ao mesmo tempo, o quadro internacional era diferente daquele que, em alguns aspectos, havia facilitado a consolidação do poder de Stalin e de sua camarilha. Nos anos 1930, o proletariado em nível internacional sofreu uma série de importantes derrotas: a vitória de Hitler na Alemanha, a derrota dos processos revolucionários na Áustria, França e Espanha devido à ação política imposta por Stalin tanto diretamente, quanto através dos partidos comunistas locais. A situação foi diferente nos anos após 1945: a derrota do nazismo e do fascismo na Europa, o processo de luta pela independência na Ásia e na África, o nascimento de novos Estados operários, embora deformados, no leste europeu e na Ásia, a derrota dos Estados Unidos na guerra da Coréia e, mais tarde, a resistência que enfrentarão no Vietnã. Tudo isso criava, mesmo com importantes contradições (o fracasso das revoluções após a Segunda Guerra Mundial na Itália, França e Grécia), um clima de maior confiança entre as massas oprimidas em todo o mundo.

A “Grande revolução cultural proletária” na China insere-se nesta nova situação.

Do «Grande salto para a frente» à Revolução Cultural
É útil fazer uma premissa adicional antes de abordar plenamente aqueles eventos. No final da década de 1950, a República Popular da China teve que fazer um acerto de contas com o fracasso do “Grande salta para frente”: uma tentativa irrealista, administrada com métodos burocráticos, para favorecer o processo de industrialização do país. Sustentado fortemente por Mao, que se iludia em superar a produção industrial da Grã-Bretanha em poucos anos, o projeto resultou em um enorme fracasso que custou a vida de milhões de pessoas, devido à carestia causada pelo colapso da produção agrícola. .

Iniciou-se uma dura luta fracional dentro do Partido comunista chinês. Todos os principais líderes haviam apoiado a política do “Grande salto para a frente”, mas agora muitos a criticavam, pedindo o fim do processo de coletivização no campo. Uma Conferência do partido em 1961 marcou esse giro moderado ou de direita. Começou-se a favorecer o pequeno produtor rural, bem como o lucro privado e incentivos materiais aos agricultores. Os equilíbrios de poder dentro do Pcc e do Estado foram redefinidos. Mao deixou o cargo de presidente da República em 1959, agora confiado a Liu Shaoqi, e permaneceu simbolicamente presidente do Pcc, do qual se tornou secretário Deng Xiaoping. Ao mesmo tempo, Lin Biao, um aliado de Mao, tornou-se ministro da defesa. Aproveitando sua posição, ele começou a consolidar no exército o culto da personalidade do Grande Timoneiro, que desempenhará um papel cada vez mais importante durante o curso da Revolução Cultural.

Os equilíbrios entre as diferentes frações da burocracia na China permaneceram precários. A “direita” de Liu e Deng controlava o Pcc e os aparatos estatais, a “esquerda” de Mao e Lin, os quadros do exército e a polícia.

Um esclarecimento necessário. As palavras esquerda e direita estão colocadas entre aspas porque, como veremos mais adiante, tratava-se de uma diferenciação dentro do aparato de poder que, ao ver que corria o risco de perder predomínio, buscará e encontrará maneiras de pôr de lado os próprios contrastes.

A trégua interburocrática, no entanto, não podia durar muito: contradições de natureza externa e interna contribuíram para enfraquecê-la cada vez mais. O processo de desestalinização iniciado na URSS acentuou, entre outras coisas, a linha de coexistência pacífica entre o primeiro Estado operário e o imperialismo. Isto teve consequências concretas para a China: o fim da ajuda econômica por parte de Moscou, o fim da cobertura nuclear defensiva em favor de Pequim. Essas decisões só poderiam criar fortes preocupações no País, devido à presença cada vez mais forte das tropas americanas no Sudeste asiático: uma agressão imperialista com estrelas e listras não poderia ser descartada.

Internamente, a vitória revolucionária de 1949 permitia progressos importantes e inegáveis no campo econômico. Os mesmos efeitos devastadores do «Grande salto para a frente» foram superados no espaço de poucos anos, mas os desequilíbrios na sociedade chinesa estavam longe de serem superados: as melhores escolas continuaram a ser um privilégio das crianças da nova casta dirigente, a superação da política de industrialização forçada trouxe consigo o retorno do empréstimo com agiotagem, o fechamento de muitos hospitais nas áreas rurais mais pobres, uma diferenciação de salários entre o proletariado agrícola (maior para aqueles que produziam bens de maior valor destinados às cidades, por exemplo hortaliças), uma alta porcentagem de trabalhadores precarizados na indústria que não recebiam salários desde 1959. Esmien diz que, naquela época, a população ativa crescia cerca de sete milhões por ano, enquanto as cidades só podiam garantir 300 mil novos postos de trabalho. No entanto, aqueles que haviam conhecido a vida urbana não queriam voltar para a miserável vida no campo.

Esta situação foi a base material que permitiu a Mao e sua fração apelarem às massas mais pobres para reverter o equilíbrio de poder no Partido e nos núcleos do Estado, mas ao mesmo tempo também foi uma das causas que impediram à fração do Grande Timoneiro de evitar que a situação escapasse de suas mãos.

Os eventos tomaram o nome de Revolução Cultural porque foi a partir das questões de cultura que a luta entre as frações e a subsequente verdadeira maré revolucionária começaram.

A luta interburocrática explode com violência
Em 10 de novembro de 1965 apareceu em um jornal de Xangai (que a partir daquele momento será a fortaleza dos maoístas), um artigo crítico a uma obra de 1961 escrita pelo vice-prefeito de Pequim, A destituição Hai Rui. A acusação feita contra o autor foi a de, por meio de um drama histórico, atacar as ideias de Mao. O jornal, nesse meio tempo, pediu ao CC que as ideias dos intelectuais próximos aos líderes da “direita” do Partido fossem condenadas, mas sem sucesso. Em fevereiro do ano seguinte, o grupo constituído pela Revolução Cultural (hegemonizado por elementos contrários a Mao), entre os quais se destacava o prefeito de Pequim, Peng Chen, afirmou que o debate não deveria sair do âmbito intelectual.

Depois de silenciado num primeiro momento, Mao e seus aliados partiram para a ofensiva. O Comitê Permanente da Assembleia Nacional lançou a “Grande revolução cultural proletária”. Em 16 de maio, o CC emitiu uma circular para estender o Grcp entre o Partido, o Estado e o Exército, com o objetivo de expulsar os elementos com tendências burguesas: desse modo, começou a expurgar os elementos contrários a Mao. Em Pequim na Universidade foi publicado o primeiro dazebao (manifesto- mural – outdoor) onde foram criticados os professores que, de alguma maneira eram identificados como adversários do pensamento do fundador da República Popular.

Os tumultos se espalharam como fogo. Os defensores das posições de “direita” estavam começando a sentir o perigo e, em resposta, organizaram equipes de trabalho para enviar nas universidades e escolas para tentar dirigir a Revolução Cultural, para, na verdade, tentar colocar a situação sob seu controle. Mao e seus aliados, em reação, decretaram a dissolução das equipes de trabalho, acusadas ​​de querer interromper a Revolução Cultural nas escolas e o fechamento das universidades. Ao mesmo tempo, começaram a aparecer as Guardas Vermelhas, formações de jovens apoiadoras Mao Tsé-Tung.

Os eventos continuaram a seguir freneticamente um ao outro. No plenário do CC, em agosto, Mao lançou o famoso chamado “bombardear o quartel-general”. Isso, junto com a emanação dos dezesseis pontos, verdadeira carta fundamental da Revolução Cultural, criaram a ilusão de que Mao e sua fração fossem os defensores de uma verdadeira revolução no sistema de poder após 1949.

Na verdade, as reivindicações de liberdade de pensamento, de crítica aos dirigentes, de auto-organização das massas em luta, da elegibilidade e revogabilidade dos dirigentes, reportando-se à experiência da Comuna de Paris de 1871, permaneceram no papel. Certamente, o apelo às massas, as manifestações oceânicas de milhões de Guardas Vermelhos vindos a Pequim para apoiar os defensores da Revolução Cultural, e Mao em particular, induziram a essa convicção equivocada.

Foram os eventos subsequentes, entre dezembro de 1966 e janeiro do ano seguinte, que esclareceriam, sem dúvida, qual era a verdadeira intenção do chamado agrupamento “de esquerda”.

Mao e seus seguidores argumentaram que a revolução não deveria ser apenas cultural, mas uma vez aberta a caixa de Pandora da mobilização de massa, os eventos não poderiam ser dirigidos ou controlados nos gabinetes pelos membros do Comitê Central.

A classe trabalhadora entra em campo
Shangai, o maior centro industrial do País, foi o centro do que foi chamado “a tempestade de janeiro”. Greves, confrontos com a polícia, ocupações em fábricas, paralisação geral do transporte público caracterizaram a luta na metrópole. O descontentamento e as contradições acumuladas ao longo dos anos explodiram sem controle. A classe trabalhadora começou a entrar no campo da luta, com suas próprias demandas: aumentos salariais, melhores condições de trabalho, qualidade da moradia e assistência médica. Os trabalhadores viam no pensamento e nas palavras de Mao a justificativa de suas ações.

No entanto, o Grande Timoneiro começava a sentir o perigo. Por um lado, não podia fazer um apelo específico para frear a mobilização, já que seus adversários no aparato não haviam sido completamente derrotados, por outro, ele começou a perceber que a situação agora estava fora de controle.

Em relação às greves que eclodiram no País e, como mencionado acima em Xangai, particularmente, o Comitê Central votou um documento em que se condenava, como economicismo, as demandas por melhoria econômica reivindicadas pelos trabalhadores. Pois, de acordo com o grupo dirigente do Pcc corria-se o risco de por em perigo as conquistas revolucionárias.

Mao e sua fração acreditavam que por de trás dos acontecimentos ocorridos na capital econômica do País, estivessem seus opositores no Pcc, julgamento sem sombra de dúvida errado e calunioso. Na realidade, o processo iniciado no final da primavera de 1966 foi o estopim do descontentamento que há muito pairava na sociedade chinesa e que a revolução não conseguira derrotar.

Aliás, os enormes privilégios que os burocratas desfrutavam não fizeram senão aumentar a raiva popular e o ressentimento, que só aguardavam a oportunidade de vir à tona. Certamente, em alguns casos, os adversários tentaram usar as mobilizações operárias contra a fração de Mao, mas sob nenhuma circunstância podemos falar de uma ação concebida nos gabinetes pelos expoentes da “direita”. Shangai era de fato uma verdadeira fortaleza dos maoístas.

A tentativa da fração de “esquerda” de controlar os eventos veio novamente com o chamado para a mobilização das Guardas Vermelhas. Mao lançou a palavra de ordem da “tomada do poder”. Do que se tratava?

Primeiras tentativas de normalização. O papel do exército
As Guardas Vermelhas, junto com os membros maoístas do Partido, deveriam atacar as sedes do Partido e das instituições estatais, expulsando seus adversários políticos, substituindo-os.

A característica saliente deste processo foi dada pela intervenção do exército. Se, no início, o Exército de Libertação do Povo devia apoiar a ação das Guardas Vermelhas e a fração de Mao, com o passar do tempo e a precipitação dos eventos, tornou-se um sujeito cada vez mais ativo e protagonista. A natureza burocrática e bonapartista das “tomadas do poder” se evidenciou pelo fato de serem elas mais simbólicas do que concretas, no sentido de que as Guardas Vermelhas não se tornavam a base de massa de um novo poder. Deviam limitar-se ao nível local (municipal e regional), enquanto era excluído que as “tomadas de poder” pudessem valer no plano nível nacional. O exército devia ser excluído, dado que tornava-se ao longo do tempo a única instituição que poderia garantir uma certa continuidade de poder: reprimia as greves tomando o controle de portos, ferrovias, transportes, etc., intervinha cada mais frequentemente para resolver disputas entre os diferentes grupos revolucionários. Muitas vezes, em nível periférico, os líderes fardados não aceitavam a retórica “movimentista” de Mao, porque viam nesta um perigo para a manutenção do status quo.

O evento que deu a desculpa para iniciar o processo de normalização da Revolução Cultural foi o chamado incidente de Wuhan. Em agosto de 1967, dois ministros enviados de Pequim foram presos pelo comandante militar destacado na cidade. O próprio Mao foi forçado a deixar a cidade às escondidas depois que uma multidão enfurecida cercou sua casa.

O aparelho do PCC recupera o controle
As escolas e universidades, que haviam fornecido a base material das Guardas Vermelhas, foram reabertas. Os subsídios que permitiram aos estudantes viajar para Pequim para apoiar Mao e seu grupo foram cancelados. Vinte milhões de Guardas Vermelhos foram enviados para o campo nos quatro cantos do país, sob o pretexto de entrar em contato com a vida dos camponeses, na verdade para dispersá-los e anulá-los. Os comitês independentes (que em alguns casos chegaram a um milhão de membros) foram dissolvidos, também com a intervenção do exército quando necessário. Mao afirmou que 95% dos líderes do Partido eram honestos, enquanto, ao mesmo tempo, ordenava o expurgo de apoiadores que interpretavam com exagerado zelo seus pensamentos. Entre seus oponentes, apenas Liu Shaoqi foi deixado de lado, enquanto Deng Xiaoping sofreu apenas uma pequena sanção disciplinar.

A demagogia movimentista e antiburocrática foi definitivamente posta de lado quando, por ocasião da convocação do IX Congresso Pcc, a lista de delegados foi decidida pelo Comitê Central. Entre mais de 1500 delegados, 3/4 eram membros do exército.

Maoísmo ou a ilusão de uma auto-reforma da burocracia
Trata-se agora, neste momento da análise do fenômeno Revolução Cultural, de compreender suas características básicas, e porque as esperanças depositadas em Mao como possível defensor de uma verdadeira batalha contra a burocracia e as suas degenerações foram mal correspondidas.

De certo ponto de vista não deve nos surpreender as esperanças e ilusões que a ação de Mao despertou em setores de vanguarda do movimento estudantil e em parte do movimento operário em nível internacional não só nos anos em que ocorreram os fatos que brevemente analisamos, mas também nos anos seguintes. Na Itália, em particular, a maioria das organizações políticas, que naqueles anos estavam à esquerda do PCI, tinham depositado no maoismo a própria referência política internacional. Isso também explica por que uma situação revolucionária que caracterizou o País por uma década (final dos anos 60 e 70) terminou em derrota. Nem essas organizações, nem muito menos o PCI, tinham um programa coerente de ação revolucionária visando a conquista do poder pelas massas operárias.

Como observa Nahuel Moreno, enquanto a casta burocrática na URSS tinha se estabelecido como um corpo monolítico consolidado em detrimento da classe operária russa, que não só tinha sido gradualmente despojada do poder conquistado outubro de 1917, mas tinha sido aniquilada, exterminada e reduzida a total passividade, na China as coisas estavam seguindo um curso diferente. Mao lançava sua batalha em nome da luta contra a degeneração burocrática do Partido e do Estado, contra a qual apelava à participação e mobilização inicialmente dos estudantes e depois dos operários.

Stalin, em nenhum período de seu domínio chegou a tanto. (1) Além disso, enquanto nos anos 60 a URSS defendia de coexistência pacífica com o imperialismo norte-americano, a fração do Pcc liderada por Mao e Lin Biao fazia uso da retórica anti-imperialista e da necessidade da mobilização das massas em defesa da nova China surgida a partir da Revolução de 1949 (a prova de como propaganda contra o imperialismo era um instrumento para a luta fracional se verá anos depois com a visita de Nixon à China e o nascimento de acordos entre os dois países, desta vez em oposição à URSS). É óbvio que tudo isso criasse esperanças entre as vanguardas que, nos anos 60, começavam a se tornar protagonistas da luta política, não se limitando a delegá-la a seus tradicionais representantes políticos e sindicais.

As razões de fundo que explicam a ação de Mao eram outras. Como lembrado no início, após o fracasso do “Grande Salto para frente”, Mao foi colocado, pelo menos parcialmente, à margem. A nova maioria liderada pela fração de Liu Shaoqi/Deng Xiaoping inclinava-se para a aplicação de uma política econômica mais favorável para as camadas superiores do campesinato, a uma espécie de tolerância para com a iniciativa privada (após a morte de Mao, Deng vai regressar com força total na vida política chinesa e como um líder indiscutível será o arquiteto do processo de restauração do capitalismo no País).

Encontrando-se em minoria no aparato do Partido, Mao tentou, por um período, recuperar posições usando as estruturas do Pcc. Tendo verificado a impossibilidade de prosseguir com sucesso esse caminho, ele escolheu o caminho do apelo às massas. Quanto a que sua real vontade não fosse a de lançar uma verdadeira luta frontal contra o aparato, podemos intuí-la pelas decisões de não querer mobilizar, no início, as massas operárias: um apelo direto ao proletariado iria demonstrar a vontade de uma verdadeira luta contra as degenerações burocráticas que estavam presentes na sociedade chinesa, mas produto do aparato como era Mao, não podia correr este risco. Mao quis sempre manter o exército a salvo das ações explosivas das Guardas Vermelhas: as “tomadas de poder” de que falamos, não deveriam dizer respeito a ele, mas sim a intervenção do exército assegurava, tanto quanto possível, novos choques contra a estrutura do Estado.

Mesmo nos momentos em que o confronto era mais difícil, Mao evitou lançar seus ataques contra as principais instâncias do Estado e do Partido (Conselho de Assuntos de Estado e Comitê Central). Após o incidente de Wuhan, sua ação foi claramente contra-revolucionária e restauradora: o uso maciço do exército para normalizar a situação consagrava suas intenções autoritárias e burocráticas.

A ausência de uma direção revolucionária é a causa do fracasso da mobilização das massas contra o aparato
Todavia, os eventos da Revolução Cultural também nos deixam ensinamentos positivos. Uma vez liberada a força revolucionária das massas, especialmente os trabalhadores, não pode ser tão facilmente controlada. Nós não temos a contraprova, não sabemos o que Mao teria feito se tivesse imaginado que seu apelo às mobilizações se transformaria em uma tempestade que atingiu profundamente a sociedade chinesa por tanto tempo. Mas sabemos que as posteriores lutas entre as diferentes frações do Pcc se resolveram sem exigir a intervenção ativa das massas. Pelo contrário, as tensões que explodiram entre estas, em 1989, foram ainda resolvidas com a intervenção do Exército de Libertação Popular, e com a brutal e sangrenta repressão dos jovens que ocuparam a praça Tien An Men.

Tivemos também, pela enésima vez, prova de que, sem uma direção política clara e consequente, nenhuma mobilização, por maior e mais radical que seja, pode por si só triunfar. Um partido de tipo bolchevique, baseado num claro programa leninista e organizativamente delimitado de qualquer outro partido político, é essencial não só para a conquista do poder em uma sociedade burguesa-capitalista, mas era necessário também para se realizar com sucesso a luta pela revolução política nos Estados operários degenerados ou deformados. (2) É esta, sem sombra dúvida, a culpa maior daquela corrente majoritária que, após a Segunda Guerra Mundial reportou-se às posições políticas de Trotsky e da Oposição de esquerda ao stalinismo. Não tendo construído partidos bolcheviques-leninistas, ou seja, seções da IV Internacional nos Estados Operários, na ilusão de que os setores de esquerda da burocracia poderiam cumprir esta tarefa, é sem sombra de dúvida uma das causas, senão a principal, que não permitiu, à mais ampla e radical experiência revolucionária em um Estado operário deformado, expulsar definitivamente a burocracia do poder e entregá-lo nas mãos do proletariado e de suas organizações de poder, os soviets.

Publicado originalmente pela revista revista Trotskysmo Hoje. Traduzido por Alberto Albiero jr,


Notas

A ortografia oficial chinesa em vigor desde 1958 é usada para nomes chineses.

* Para aprofundar o tema, que não temos a possibilidade de desenvolver neste artigo, sugerimos as seguintes leituras (além dos textos mencionados na bibliografia):

1) Ver N. Moreno, “La revolucion cultural China“, em La Verdad 102 de 21/08/67 e no capítulo “Como el debemos analizar el fenômeno” em N. Moreno, Las Revoluciones China e Indochina, 1968.

2) Usamos verbos no passado porque hoje não há mais Estados operários para os quais seja possível lançar a palavra de ordem da revolução política.

Bibliografia

A. Bronze, Os comunistas na China. Das origens até a tomada do poder, Nuove edizione internazionali, 1983.

L. Trotsky, A revolução permanente, 1929, Pbe, 1967.

L. Trotsky, Escritos 1929-1936, Oscar Mondadori, 1968.

L. Trotsky, Os problemas da revolução chinesa e outros escritos sobre questões internacionais 1924-1940, Einaudi 1970.

L. Trotsky, A Terceira Internacional depois de Lenin, Schwarz, 1957.

Isaacs, A Tragédia da Revolução Chinesa 1925-1927, Il saggiatore, 1973.

Mao Tsé-tung, O Pequeno Livro Vermelho, Newton Compton, 2008.

Sobre o papel do stalinismo e do togliattismo na Itália, vários artigos apareceram no Projeto Comunista, Trotskismo hoje e em nosso site.

Além dos textos já mencionados, ressaltamos:

A. Bronze, As sombras do Dragão. História crítica do comunismo na China desde suas origens até os dias atuais, Redstarpress, 2016.

L. Maitan, Partido do exército e massas na crise chinesa, Samonà e Savelli, 1969.

J. Esmein, História da Revolução Cultural Chinesa, Laterza, 1971.

E. Germain (pseudônimo de Ernest Mandel), A revolução cultural. Uma tentativa de interpretação. Do marxist internet archive

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